terça-feira, 20 de março de 2012
A música
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
No outro lado do existir
Era como se passasse para o lado de lá de sua existência, o lado onde era apenas isso: um existente. Olhá-lo, assim, à distância, enquanto sorvia o vício pelas passagens de sua ciência de apenas existir era qualquer coisa de completo. Não fumava apenas: erguia a cabeça e fumava-me em demoradas tragadas. Só, e apenas. Talvez por não gostar da partilha, da entrega, do desvelo. Talvez precisar inalar todo aquele dia frio, solitário de mim. Dia de quem apenas existe, de quem é. Não era como se tivesse chegado à consciência de seu próprio corpo, ou do meu corpo ausente ao seu naquele momento: era a certeza concreta de ser, independente de se perceber no mundo. Apaixonado de si. E eu, inteira, tragada por ele, sabendo que era a minha paixão que ele sorvia e era a minha paixão novamente que ele repudiava e lançava pro mundo e que, paixão que era, o rodeava, mas não se ia... desvanecia, mas não se ia.
domingo, 14 de novembro de 2010
Mandala
domingo, 26 de setembro de 2010
Amélia quando era mulher de verdade
Aprontava-se.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Queda
Enquanto caminhava pela avenida movimentada, barulhenta, suja e atordoada, nem estava lá. Não percebia o ir e vir dos incansáveis e inumeráveis automóveis, o lixo nos canteiros, o mato alto a quase lhe roçar as canelas finas. Não estava lá. Olhava tudo com a imparcialidade de quem não dá importância aos tumultos, às buzinas, aos acidentes - e eram tantos àquela manhã! Desde que deixara o carro no congestionamento mais atrás, e, nele, seu esposo numa verborragia de maledicências e pragas, apenas andava na beira da avenida. Olhava para a favela logo abaixo e pensava o que aconteceria se apenas caísse.
sábado, 5 de junho de 2010
Terceiro segredo
Conhecera-o dentre uma e outra certeza, quando já estava ciente de que só poderia mesmo experimentar de leve o contato (...)
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Àquela que nunca maculei
Nem mesmo pelo ar bucólico e carregado de teus ombros, seguidos de perto pelo mistério das saboneteiras, e, sem querer decepcionar-te, também não te fixei pelas mãos pianistas, que figuram uma grande paixão de minha infância, claras, decididas, delineadas e, no entanto, totalmente intangíveis, que começavam em pulsos perfeitamente finos e subjetivos, com aquele ossinho a apontar "sou mulher" e terminavam em unhas que nunca ousarei descrever por não confiar desta forma numa capacidade poética tão falha quanto a minha.
Erras, se presumes que guardei-te, tão firmemente à memória de artista, a figura devido àqueles teus traços laterais, munidos de latente carne e emeados pelas pontas sensuais dos teus cotovelos. Não digo ainda do motivo que me faz guardar-te eternamente entre os cachos que me povoam a mente, prefiro falar, nesse momento de devaneio, da tua minuciosamente latina pele amarelo-queimado que comporta esses sinais esparsos e distintos e convidativos e distantes; sou, nesse instante, tão vontade de olhar e olhar para sempre um pedaço de tua pele.
E teu ventre... teu ventre sempre coberto que me traz à tona a maternidade futura, teu ventre oculto pela camisa me parece o lugar mais conciliador de teu corpo todo e me instiga a vontade - tão contundente - de te pedir que acolhas, na superfície dele, minha cabeça atordoada, mãe carinho paixão que resume teu ventre. O que muito me importa, não sendo, no entanto, o que me prendeu à tua imagem, é essa singeleza eminente que te cerca e que se explode toda em não-limites e que, até agora, não sei precisar se te toca ou se emana de ti.
O que tem a tua figura que, uma vez presente, me preenche inteira e me impede de não te amar toda essa tua feminilidade que nunca antes eu vira materializada? Aqui eu chego, finalmente - e muito cansada e muito satisfeita e muito embriagada de te admirar -, no que me faz nunca te esquecer e sempre tentar te retratar com tantos e diversos nomes e histórias e facetas. Não é ainda a tal feminilidade descabelada ou essa tua face invasora que vem sempre me encantar, de dor e sofrimento e bucolismo e transcendência.
É a poesia, que me chega por todos os poros e de todos os meios e que só não te usa por ser a tua aparição a perfeita materialização da poesia. Em meus livros de teoria da literatura já posso grafar, à caneta bem escura, que a poesia és tu, posto que tu és a pura e simples poesia.
sábado, 30 de maio de 2009
sem titulo
As palavras.
As palavras que não eram desenhadas, diagramadas e escritas em sua mente tão despenteada. E chorava.
Tossia a dor de não saber expressar a dor que estava sentindo, a timidez tartarugueana de se esconder e não encontrar nunca mais a chave da porta da frente pra sair e ir ver como se faz pra conversar. E era uma atrocidade vê-lo chorar e tossir daquela forma pedindo que eu compreendesse todos os seus esforços bovinos de repetir a mesma lágrima, sem que eu conseguisse ler as palavras, porque não estavam escritas ou desenhadas. E ele chorava tudo o que não conseguia dizer e o que eu podia fazer? Era apenas um talvez, uma incerteza, um subjuntivo mal conjugado o que eu estava segurando em minhas mãos imberbes. Iverossímel estar tão atada aos soluços de alguém que não me permite visualizar o menor contato.
O que fazer?
Deixei-o.
Como se deixa um vestido que não serve mais e segui em frente, sem tentar perceber as letras, as nuances, as cores daquelas lágrimas mudas, com a sua própria linguagem inacessível, imcompatível. Deixei sua mudez húmida e coberta de folhas prenhes pela minhas palavras secas, murchas e bolorentas.
sábado, 1 de março de 2008
Uma do outro dia.
O sol. Bem, o sol estava lá, do mesmo jeito: amarelo, grande, quente e ajudando com a vitamina D. (Na verdade, não tenho muita certeza dessa última característica, mas é o que dizem por aí.) Para um adulto, deveria ser uma mancha muito clara em um céu ofuscante, seria algo a não ser olhado nunca. O olhar de um adulto evitaria o sol e buscaria o chão. Entretanto, para uma criança seria um rosto com cara ruim, cara de outra criança que se diverte torrando formigas com uma lupa. Maldito sol. Pior que gosto dele, apesar do câncer e das ensolações que causa por aí.
Abraço o sol, às vezes. Masoquismo, ou não. Talvez seja uma doença inerente à maioria das pessoas que conheço: amar o sol, só porque ele queima, só porque ele tem aquela cara de criança má, só porque causa câncer. E não tenho ninguém que me sacuda e diga: "Iara, ame a lua, cante para a lua." Eu não poderia amar a lua, apesar de não deixar de ser uma adoração platônica. A lua é doce e eu sou mulher.
O asfalto também. Pega nas mãos do sol e me olha da mesma forma. Como que me miram e, infalivelmente, acertam-me, derretem-me. Eu me agarro ao leque, mas mal posso trocar com ele intimidades, com esses dois à minha volta, fuzilando o mormaço do meio-dia nas minhas pernas finas e descobertas.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Ela era ela, era elas
Já virava rotina, sem ter sido repetido, porque ela revivia a mesma coisa tantas vezes que, antes que acontecesse outra vez, ela queria inovar e sair da vida parada e comum que levava.
Tinha, no pensamento, tantas faces e palavras e opiniões e vidas que não sabia qual delas vestir na hora de sair de casa. Se tivesse vivido 100 anos não teria recolhido, pelas experiências vividas de fato, tanto de si.
Se tivesse realmente, carnalmente, vivenciado todos esses 500 anos que possuía, nunca teria as dúvidas que tinha. Todas as fases de pensamento e opinião e faces e palavras teriam decorrido da forma correta, uma nova tomando o lugar de uma velha de forma definitiva.
Uma Torre que come um Cavalo, assumindo sua posição. Não dessa forma louca que agora está. Não foram tomados os lugares, foram apenas sentando-se ao lado das antigas e formando assim uma longa fila.
Podia se esconder dentro de um baú e ainda assim seria encontrada, tantas eram dentro dela que jamais caberiam dentro de qualquer baú: a tampa ficaria sempre aberta.
Analisando depois, ela sempre achava que atropelara os fatos, vivera-os todos ao mesmo tempo, quando deveriam, cada um, ter seu lugar, sua hora e sua vez. Lendo seus diários, sempre repetidos e sempre tão diversos, como qualquer diário, tinha a certeza da própria superficialidade. Nem duas páginas separavam um amor eterno de outro.
Duas páginas que são dois dias. Analisando depois nem há o que pensar. Não houve tempo, nem verdade. Quem quer que o leia sabe quem é ela. Porque ela se expressa bem, mas não consegue expressar o indizível, porque o indizível não importa.
Tudo o que ela escreve vira nada depois, de qualquer forma. Para quê ela vai dizer para si mesma que duas páginas não querem dizer dois dias. Querem dizer dois dias que querem dizer 2 anos e todas as elas que puderem nascer dentro desses dois anos.
Ela que não é só ela; ela que é elas. De cabelos e olhos e narizes e orelhas e olheiras e bocas. Porque o rosto sempre sai nas fotos e nunca igual, parece outros. Tantos mil rostos e uma bem-resolvida aparência. O espelho servia bem para os seus ensaios, na verdade. Do espelho não cansava, não o revivia, não havia tempo entre um e outro encontro.
Mas, na hora de regurgitar, é apenas uma. Funde-se e regurgita com uma única garganta o refluxo de todos os seus estômagos. E dois dias tomam proporções de dois anos, e é o bastante para que canse, para que viva toda a imensidão do fato, em todas as suas proporções e durma exausta, sem vontade de continuar.
Ela que já termina o seu sorvete e outro e outro e outro, em um. E nunca mais quer o sorvete. Nem pode mais. Não pode mais porque já não consegue. E não consegue porque era ela, porque era elas, porque era gosto cansado e passado.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Aos mortos
Já era lugar-comum. Tinha medo de se tornar superficial, com esses sentimentos de pele que têm as carolas “papa-defunto”. Medo de nunca passar da lágrima absorvida, da testa franzida, do olhar penoso. Aquela coisa toda da hipocrisia humana, cheia de pesares e falsos olhares de carinho. No momento, todo era apenas medo. Desse tipo de medo que não assusta pelo que a gente vê, mas pelo que a gente pode fazer acontecer. Ou nem isso. Era só a vontade de ser bom e piedoso; mas piedade faz a gente chorar com a dor que não é nossa; mas bondade faz a gente aconchegar o que não nos pertence. Na verdade mesmo, ele estava buscando um medo dentro do fato que estava vivendo. Uma tentativa de fugir e não viver mais. Acabava por sentir medo de si e de nada.
Não tinha bem certeza para que lado estariam correndo suas mudanças. Poderia estar se formando qualquer coisa de frívolo e momentâneo dentro dele; qualquer coisa de pele, que não invade as camadas cutâneas; qualquer coisa de deboche (!). É um choque, um espasmo, quase uma dor afirmar isso: poderia ser deboche. Um escárnio que viria se formando de dentro para fora, não, de fora para dentro. Estaria se tornando ainda mais profundo. Dolorido e doentio: uma tuberculose, um câncer espiritual. Um câncer, do jeito que ele vem: fazendo acampamentos, fogueiras e usucapião. Pode alguém ser mais profundo que a própria existência? De forma que precisasse sugar, sub-repticiamente, a existência dos outros, o amor dos outros, para continuar tendo onde pisar? Tão afundado assim que conseguisse ir comungar com o sentimento dos mortos? Nem com os corpos, que seu câncer era etéreo. Ele mergulhava tanto em si que já não sabia se fundo ou raso.
A própria chaga ele ignorava, talvez precisasse que alguém a furtasse para que se fizesse presente. Era parte dele também o que ia embora sem acenos de adeus. Era ele também que perdia alguém. Mas se sentia vivo, sentia-se aceso enquanto o rosto aquecia-se e chorava a lágrima dos outros. Jamais tivera algum contato além-necessário com aquele primo. Não lhe conhecera as manias, os gostos. Os gestos até causaram nele certo desgosto, ou mesmo algum nojo. Jamais trocara mais que duas palavras e preferira, sempre, não manter contato com esse distante parente. E, agora, apaixona-se carinhosamente.
Algum distúrbio, talvez alguma neurose. Passava a amar as pessoas a partir do momento em que já não poderia ser retribuído, nem decepcionado. Mantinha seguro o platonismo. Passava a sentir o morto com mais pesar que os familiares próximos, passava a sentir-lhe a falta com mais intensidade que os íntimos amigos. As qualidades brotavam das lágrimas daquelas pessoas com tanta veracidade que lhe apagavam da memória os gestos de que não gostava e a preenchiam com as manias e os gostos que desconhecia e todo aquele bom coração que tinha o seu estimado parente. Ele já não possuía mais defeitos, o morto. Ele chorava as lágrimas emprestadas de saudade emprestada, de amor emprestado, o vivo. Sentia tão fundo a perda daquela pessoa que já não sabia até que ponto poderia ir sua falsa tristeza e seu falso pesar. Já não achava uma morte estúpida de uma pessoa estúpida. Voltaria a pensar nisso depois, em como poderia estar se tornando alguém frívolo.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
O caso do rapaz que não sabia sorrir.
Já vivi muito e como vi e ouvi! Contando que já estou aqui pelos anos muitos da minha velhice e, com a aposentadoria que recebo, minha maior diversão é ficar em casa, agora com menos companhia do que antes, resolvi escrever o que “o alemão” ainda não me tirou da memória. Não pensem vocês que vou me ocupar em análises profundas do entendimento humano, não dou para esse tipo de frescura. Vou contar do mesmo jeito que aconteceu, quando, não muito tempo, ainda era mais moço e recebia meu dinheiro todo mês sem precisar ir buscar pelo Governo. Deixe-me puxar pelos botões enquanto sento aqui neste banquinho, se quiser abanque-se aí que não sei do tamanho da história.
Como disse, não costumo falar dos outros, mas tem gente pra toda reza nesse mundo, isso tem. Eu trabalhava de vendedor no estabelecimento do Dr. Maurício, ele fazia lá umas poções para gripe e mal-estar e eu as vendia pelo preço estabelecido. Era um boticário conceituado, esse moço, bem jovem, talvez fosse mais velho do que eu uns 5 anos, era até agonioso chamar de “senhor” um rapazote quase da minha mesma idade; mas viveu fora, estudou, era doutor com diploma e tudo o mais. Era um rapaz dos livros, ou melhor, daqueles vidrinhos que ele tinha muitos lá.
Pois bem, uma vez foi que chegou uma senhora, pedindo logo uma consulta com o Doutor, que era caso sério e não dava para só comprar frasquinho de xarope. Eu não sou fuxiqueiro e em vida alheia não dou palpite, mas aquilo me deixou num pé e noutro. O Doutor ainda não tinha chegado de viagem, tinha ido para uma alguma-coisa-de-Universidade que eu não entendi muito direito, talvez fosse demorar ainda. E foi desse jeito que eu disse.
- Olha, a senhora vai desculpar, mas o Dotô ta não e eu acho que vai demorar ainda, viu.
A mulher não tinha outra escolha e se decidiu por ir embora e voltar no dia seguinte. Eu fiquei lembrando aquilo o dia todo, não que fosse do meu interesse. Afinal, boticário só faz remédio, se era assunto tão sério, ela devia era visitar o médico, ou procurar a rezadeira, bem podia ser coisa de encosto. Do jeito que era moda naqueles tempos um encosto vir perturbar a paz da gente, era bem provável mesmo que fosse. Resolvi que era melhor esquecer, eu não tinha nada com história alheia, muito menos, se o assunto era coisa do outro mundo. Sempre tive medo de assombração.
Acontece que a criatura não me deixava esquecer o acontecido. Ia todos os dias me perguntar pelo Doutor e nada do homem voltar para atender logo a mulher. Todos os dias ela aparecia um pouco antes do meu almoço e perguntava cadê o Doutor. Se pelo menos perguntasse feito gente decente, mas nem isso! Ela colocava uma fala arrastada de gente morrendo e fazia uma feição assim distorcida, meio desespero, meio agonia. Eu já achava que a mulher ia morrer a qualquer momento e sem me dizer qual era a enfermidade que xarope não ia curar. Ela começava com um “ei” desnutrido que quase não saía do primeiro som e, depois de olhar para baixo umas três ou quatro vezes, perguntava pelo Doutor, que não chegava nunca.
Lá pelo quarto dia eu já até esperava que a mulher-assombração aparecesse cantando sua ladainha arrastada. Terminava todo o serviço da manhã, espanava as prateleiras, reorganizava os vidrinhos de remédio e, quando já estava com o pano no balcão, vinha aquele “ei”. Eu respirava fundo, bem fundo. Sou uma pessoa muito paciente e dou opinião apenas no que me diz respeito, mas aquela mulher estava me pondo em nervos! Ataquei de bom samaritano.
- Ó, ele vai demorar ainda... quiser eu tento ajudar.
Deus sabe como foi que eu consegui falar arrastado que nem ela, mas consegui. Talvez assim ela se sentisse familiarizada e mais à vontade para me confidenciar a moléstia, qualquer que fosse. Nada. Ela fez muxoxo com a boca e foi pela porta da frente. Mas isso não me fez desistir, na verdade eu já estava bastante empenhado em saber o que tanto aquela mulher queria com o boticário.
No dia seguinte, ela atrasou um pouco e, quando chegou, nem entrou, viu que eu estava já fechando tudo para ir almoçar. Ainda pensei em chamar, mas a mulher nem fazia caso de mim. Comecei a achá-la um pouco abatida, meio com olheiras. Já estava ficando preocupado até. Afinal há quanto tempo essa mulher não deveria estar sofrendo de doença sem o boticário por perto. Tinha o médico, mas médico não é boticário. Coitadinha dela, eu bem queria ajudar. Não era só mais para saber o que era não, eu juro.
Passou assim uns dois dias e nem notícia, confesso que até me deu uma pontada de saudade da voz arrastada. Resolvi que eu ia até a casa dela para ajudar. Eu não sabia onde ela morava, mas a cidade não era grande; quando eu era moço morava numa cidadezinha onde todo mundo se conhecia e, quem não se conhecia, conhecia a Dona Nilzinha. Então, foi na porta dela que eu fui bater levando um lambedor de mel de abelha, para curar tosse, que velho sempre tem tosse e mesmo não tendo gosta de remédio que é uma coisa.
Aconteceu que eu acabei descobrindo onde morava a criatura da voz arrastada. Desconversei a Dona Nilzinha que já estava arranjando informação demais de dentro de mim, logo eu que não falo da vida de ninguém, e fui lá ver a enferma, com uma bolsa cheia de remédio. Não deu 10 minutos de caminhada, começa uma chuvinha dessas finas que a gente sempre acha que não vai molhar e acaba encharcado. Não fui diferente, achei que não ia molhar e continuei andando. Cheguei na casa da dita cuja completamente empapado, no perigo de arranjar uma gripe dessas fortes. E a mulher, aparentemente, não estava em casa.
Quem me atendeu à porta foi um rapaz, que devia ter lá seus 17 anos de idade. Um rapaz até muito corado, mas completamente sisudo. Não respondeu com gentileza a uma única frase. Não que fosse grosso ou mal-educado, é mais porque não tive a oportunidade de lhe conhecer os dentes. Por mais que mostrasse os meus em um sorriso sempre caprichado, o rapaz não devolvia. Pedi que chamasse a doente da casa e ele me olhou com uma expressão que me deixou um pouco duvidando de que tivesse acertado a casa.
- Tem doente aqui não.
Foi o que ele me disse depois de um tempo. Sem dúvida, eu tinha errado a casa. Já pedia desculpas e me preparava para sair novamente para o meio da chuva, que já estava mais forte, quando a mulher-assombração saiu de dentro da cozinha perguntando quem foi que bateu à porta. Eita, eu tive uma vontade de dar um cocorote na cabeça daquele moleque! Mas não o fiz, a mulher me olhou tão surpresa da visita que até a voz saiu menos lenta quando perguntou o que eu queria.
- Vim trazer uns remédios pra vê se algum serve pra sua doença.
- Tô doente não. É pra ele.
- Então a gente vê o que pode usar. Mas que é que ele tem? Parece doente não...
- Dotô já chegô?
- Chegô não, mas eu já to lá faz tanto tempo que sei pra que serve tudo. É verme?
- O médico disse que era não... notou que ele não sorri?
Na verdade eu tinha notado sim e aquilo me agoniava demais. Nem um sorrisinho desde a hora que eu tinha chegado. Sequer um assim meia-boca. Nada.
- Pois é. Eu acho que ele não sabe... mas o pai dele diz que é frescura de menino que tem tudo. Fica querendo ser triste. Dia desses ele disse que não tem porque ser feliz se até criança morre. Isso num tá certo, tá? Ele tá doente, eu acho.. ou então não sabe sorrir mesmo. Mas o Dotô Maurício num chega pra me dar um remédio pr’esse menino!
- Tentou já fazer cócegas?
Eu não tinha como não perguntar isso. Às vezes a família aumenta o problema, quando é bem simples de resolver. Lembro, inclusive, de uma vez que uma mocinha apareceu na boutique e... bem, deixa essa estória de lado.
- Mas já! Nem piada resolve. Ele faz que vai rir, mas nada. Nadinha! Olhe, tô contando aqui, mas espalha não que pode ficar falado.
- Não, a senhora pode deixa que eu num sô de falar da vida alheia não. Pensou já que ele pode ser meio...
- Ah não! É não! Meu menino tem o juízo certo, pelo amor de Deus! Pé-de-pato mangalô três vezes! Bate na madeira.
- Claro, não, claro... bate na madeira, isole!
- Pensei já em contratar um professor... quem sabe ele aprende? Que é que o senhor acha?
Olhe, eu achava que existia gente doida, mas esse caso extrapolou qualquer possibilidade criativa. Eu perdi meu tempo, minha curiosidade - que é pouca - , minha preocupação. Fui até o fim do mundo para descobrir, aliás, para ajudar uma pessoa que eu julgava enferma. Carreguei bolsa pesada cheia de remédio. Peguei chuva e fiquei gripado. E achava que ia encontrar alguém com o pé na cova e as mãos postas, só esperando pela mortalha e a benção do padre. No lugar disso, encontro um menino que não sabe esticar a boca e mostrar os dentes. Foi que lembrei da Dona Nilzinha. Lambedor de mel de abelha resolve tudo, segundo ela. E foi o que eu vendi: três vidrinhos de lambedor de mel de abelha. Nada de professor.
- Basta três vidrinhos, uma colher de manhã e outra à noite, viu. Isso aí é que falta vitamina nos lábios. Três e fica curado.
Quem me conhece sabe que eu gosto de ajudar.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Segredo
Era sim. Era o segredo que ela guardava para si como algo realmente precioso. Ele nem precisaria ter dito isso, mas o fez e tornou tudo ainda mais interessante, para não usar outras palavras que lhe colocariam a intimidade ainda mais visível e quase paupável, ouso dizer. Era muito reservada e se dava o direito de ter seus segredos. Já fazia parte dela. Mas um segredo sozinha, compartilhado com aquela pessoa que sabe sem perguntar, não era assim intrigante. Era apenas o reflexo de sua personalidade intimista. Não era jamais um algo de poético, um algo de fictício. Só uma intimidade. Apenas mais um parecer que o público desconhece. Um pensamento, um sentimento, uma banalidade. Não que fosse indiferente a esses segredos-comuns. Jamais agiria deliberadamente contra esses tão íntimos atores. Tinha mesmo algumas paranóias, medo de incutir nesses segredos um sentimento de inferioridade frente a esse novo. Loucura dela, talvez; mas, para manter-se sã, permitia-se algumas doidisses.
Não era esse apenas um outro dos seus mil íntimos contextos, claro. Não era um segredo sozinha. Era mais. Dessas estrelas que a gente não pára nunca mais de olhar e começa a sentir uma pontada de ciúme sem nem saber porquê. Ela fica lá em cima, piscando, e a gente já com dor de olhar; mas não pára, porque é nossa, só nossa. Ah! esses braços de egoísmo que vão nascendo de dentro da gente. Em braços de egoísmo mãos de ciúme: se alguém mais se apossar da estrela da gente? Ai, Jesus! Ela estremecia por dentro. E estremecia outra vez por ter estremecido: como poderia ser tão egoísta? Mas bom é ter segredos, né? Pensar que um estranho se apossaria da sua estrela... Chegava mesmo a doer, num desses lugares que a gente não encontra com a ponta do indicador. De qualquer forma, era externo o seu íntimo motivo. Já quase se acostumava que mais alguém o visse, já que não entenderia mesmo. Não! não, “entender” não é o verbo correto – sua grande falha com as palavras! Talvez fosse mais apropriado dizer que ninguém captaria, melhor: ninguém leria! Isso. Olhariam, mas nunca leriam seu astro piscante. Apenas ela tinha essa sede de ler-se.
Que discurso estranho. Por um momento esqueço que não era um segredo sozinha. Como pude? Espero que ela não tenha notado. Já me olha como se pudesse me ver narrando sua subjetividade. Corrijo-me: era tudo, ou todo, mais barbante. Não era assim história dela, que ela não divide. Era segredo externo, acompanhado. Era conto a duas mãos, a duas penas. Coisa assim de quatro paredes, de lugar-escondido, de olhar furtivo, de toque disfarçado e de piada pessoal que ninguém ia ler o real motivo. Era segredo-junto, segredo-casal, segredo-casado-clandestino. Uma conduta fora-da-lei sem punição. Um crime. Criminosa. Hm, era estranho e era bom ser criminosa, ela já começava a pensar. Mas, claro, dividir aquilo com o mundo, com o tempo, com a vida, já era muito diverso. Era criativo. Era egoísta – bom permitir-se o egoísmo. Mesmo assim dava seu jeito de menina levada pra o mundo saber do seu segredo sem lê-lo: Estrela. Porque saber sem ler é não saber que sabe, entende? Como quando você compra um livro e não olha as palavras, não folheia: não repara que ele está escondendo algo de você.
Desse jeito dela de guardar segredo, mostrando pra todos. Dessa forma que ela achou de viver suas entrelinhas sem ser criticada – já era tanto pela mãe –, só não queria ser incomodada. Não gostava das cobranças. Nem o tempo perdoava. Não queria que o tempo soubesse também, daí mostrava sem interesse, com displicência. Ainda não tinham aprendido a descobrir quando a falta de importância era real, quando disfarce. Tolos! Todos uns tolos, ela ria. Sempre sentados nos bancos: o mundo, o tempo, a vida... Sempre lá, julgando-se atentos ao menor movimento dos de vida obscura que passam apressados. Muito bobos querendo descobrir os segredos escondidos, procurando por debaixo das camisas, por dentro das mochilas, por detrás das sombras.
Ela era criança. Era viva, esperta. Tinha suas máscaras. E eram muitas! Incrível não repararem. Mas ela sabia fazer. Eram todos tão fáceis de contornar. Sentar-se ao lado e pretender copiar-lhes os atos já bastava. Estava tudo tão estampado nas suas maçãs e nos seus botões que não dava pra notar. Ela não era incomodada, portanto, com comentários-cobranças-invasões. Odiava sentir-se invadida. Aqueles mundos que se julgam Deus. Pretensiosos a saber tudo. Ela mal podia acreditar que já tinha sido criticada por não querer responder. Que absurdo, que absurdo. Mas era já tão experiente na arte de criar e disfarçar; dissimular, na verdade, convenhamos! Era diplomática. Não importam as certezas do tempo; ele não a pegava na esquina. Tão tolo que não reparava quando ela escorregava e ia escoando feito água ali pela rua de debochando da gravidade da lei que mandava escoar pra baixo e ela escoava pra cima. Era água boa de beber. Água boa de café.
Tinha lá já de volta seus 5 anos. Uma brincadeira. Dessas que nunca acabam e a gente deixa de ir fazer o dever de casa, de ir comer, de ir dormir. A gente deixa até de pensar. Ela só brincava. E sentia falta. Buscava sempre, porque ter segredo-junto era tão mais divertido! Era tão novo, tão bom e excitante. Não o ter segredo, mas o que ela guardava. Ia lá na sua prateleira abrir a caixa que parece um livro. Ficar olhando seu segredo-conjunto, feito conta bancária. Vontade de sentir o peso do segredo, o gosto do segredo e o calor. Se fosse mais uma de suas preciosas construções solitárias o que poderia querer? Dava adeus ao platonismo e espirrava: Nietzsche! Porque ela era conjugada num passado que quer dizer presente-visto-de-cima. Eu a vejo de cima, aprendi com ela. Ela o vê indo dentro de uma bola, quase toca uma música e caem folhas de outono. Ela tenta, mas não consegue desenhar, na mente, as palavras que pensa, não vê, só recebe as sensações. E, mais além, eu a observo e a delato aqui, porque sei o que ela pensa. Ela apenas ratifica:
- Esse é o nosso segredo.
Agora, lá vai ela ficar perto, por um motivo qualquer. Alimentar a certeza da aliança. Quase menina, quase boba, quase sorrindo. Vai lá porque é sempre algo bem mais do que eu pude falar. Sempre algo, bem dentro do amarelo dos olhos, que ainda não vi. Mas que ele nota, sem invadir. Vou-me que ele tomou meu lugar. Deixo-os sós, com seu segredo cheirando a café.
domingo, 11 de novembro de 2007
Valente
Eu explicava sobre a valentia de Roberto Valente, quando ainda um espermatozóide. É comum, pasmem, espermatozóides traumatizados, depressivos, suicidas, neuróticos e psicóticos – na falta de expressões melhores, uma vez que, como já mencionei, não possuem cérebro. Essa realidade toda de jovens e adultos que necessitam de antidepressivos e tantos mais, nada tem a ver com o mundo ou com as injustiças. Tudo começa no começo – com o perdão pela redundância. Todo o processo de criação, pelo corpo masculino, dos espermatozóides é complexo. Todo nascimento é doloroso, mas as pessoas pensam que só nascem uma vez. Na verdade, nascem três vezes – com muito respeito aos espermatozóides que não conseguiram fecundar o óvulo, claro, não esqueço os que desistiram, ou tiveram uma crise depressiva intensa no meio do caminho, também os que se suicidaram, pulando fora da vagina. Três, esse é o número de traumas iniciais pelos quais passa o ser humano. Uma dissertação rápida: o primeiro é o processo longo e traumático de criação como espermatozóide – aí você é metade do que será –; o segundo se passa no corpo da mulher – sua mãe – e é mais longo, tem todo o caminho percorrido do nascimento dos óvulos até o momento de sua fecundação – ainda com muito respeito aos não fecundados e aos mais –, é um procedimento demorado, já pensou? Temos ainda o terceiro que é aquele com a saudável palmadinha no seu bumbum para verificar se você está respirando e outras funções esperadas.
Com tantos traumas assim é de se esperar que apenas um – convenhamos que no máximo 5, sendo o recorde alcançado até hoje, pelo menos nos limites do meu conhecimento – espermatozóide alcance o óvulo. Muitas vezes ainda por sorte! Ou porque o fluxo estava muito forte e não teve com escapar do fatídico destino – esses dão o salário dos psicólogos e dos repórteres sensacionalistas que cobrem suicídios em geral. Ou porque, da mesma forma que conseguimos adentrar um belo transporte público na matina de uma segunda-feira, foram se embrenhando entre seus irmãos para não perder a carona. Uma fatalidade, em qualquer dos casos. Ah! mas o nosso Roberto Valente, não! Este fecundou porque tinha fibra! Agüentou tudo como um verdadeiro vencedor, como um herói, como um mártir, como um... um Valente! Claro, algumas vezes ele se encontrou quase chorando de dor e desespero por tantas provações, tantas corridas e tantos caminhos. O que importa é a sua não-desistência. Roberto Valente nunca precisou tomar antidepressivo, nem ir ao psicólogo, na verdade, ele nunca nem sentiu uma tristeza mais delongada ou uma vontade louca de chorar. Não me lembro de muitas vezes chorosas de Roberto Valente, exceto uma ou duas quedas mais feias, em caso de morte ou qualquer coisa assim. Ele só chorava quando o motivo era forte ou quando o seu organismo precisava expelir algum intruso de seus globos oculares. Na verdade, ninguém o via chorar, sabia esconder-se quando já não agüentava tanto; sua valentia o instigava sempre a enxugar os olhos e ir adiante.
A sua valentia era notável! Suportou os nove meses dentro do apertado útero – sem se queixar –, tentando demonstrar tranqüilidade. Nos três primeiros meses, portou-se como um verdadeiro lord. Não causou enjôos ou náuseas em sua mãe além dos que já eram provocados pelos hormônios que também o atingiam. Muitos pensam que valente é aquele que esperneia e não tem medo de falar, de reclamar, nem de nada. Que é isso? Valente é Roberto. Passou por tudo sem dramas: foi um embrião, depois um feto e depois nasceu. Para quê se revirar? Para quê espernear? Um dia ele sairia dali, e enfrentou tudo com extrema valentia, sem apressar a pobre da sua mãe. Mesmo quando ela insistia em comer o que não lhe agradava. Ainda assim ele recebia tudo, às vezes reclamava um pouco, afinal não podiam abusar dessa forma! Entretanto ficou lá os nove meses. Ficou até o dia em que o médico disse que ele nasceria. Não se pode esconder o fato de tantos e tantos bebês prematuros. Eu mesma nasci de sete meses, uma completa medrosa, se analisarmos pela perspectiva da epopéia que é habitar um útero. O nosso Roberto não! Esse enfrentou as fases mais obscuras e as mais tranqüilas com a mesma fibra.
Eis que nasce: um menininho mirradinho, pequenininho, magrinho e com problemas respiratórios. Que mundo injusto. Logo o nosso garoto! Logo o nosso herói! Além de tudo que tinha passado até então, ainda nascer tão fragilzinho. Teve que ficar na incubadora por três semanas. 504 horas deitado – ou menos, ou mais, não sou boa com cálculos e minha calculadora não é muito minha amiga. Claro, não poderia ser diferente, adquiriu refluxo – “adquiriu”... como se tivesse comprado, que termo mais inadequado. Talvez fosse tudo isso apenas mais um teste, pra saber da valentia dele. Aquela coisa toda de que Deus dá o frio conforme o cobertor, que a minha mãe sempre fala. De qualquer forma, foi assim que ele nasceu. Parecendo um ratinho, coitado. Ninguém esperava por essa, a barriga era grande. Foi, finalmente embora da maternidade. Já em casa, na sua nova caminha, com seus novos costumes – aos quais ele se adequou muito rapidamente – Roberto só chorava quando sentia fome. Ainda assim, só quando a fome era mesmo muito forte. Ele não era de firulas e dormia a noite toda. Exceto quando, por ventura, um sono ou outro o fizesse sujar o bercinho. Eu me pergunto um pouco se isso seria valentia ou preguiça, mas logo me calo: era a valentia de agüentar até a hora certa, que a mãe sabia qual era, de comer. Era um menino esperto, logo aprendeu a chamar a “Mãmã” e a “Bábá” sem precisar chorar, mas sem nem falar ainda. Mexia em tudo, nisso era um terror para os pais que não podiam deixá-lo sozinho por alguns minutos, coisa de criança inteligente que quer aprender logo o mundo. Não tinha medo de nada, de bicho, de chuva, de raio, trovão, escuro, cara feia, nem da cara estranha e cheia de peles da avó de muitos dentes de brinquedo.
Uma vez o tio Arlindo chegou com as sobrancelhas arqueadas, fazendo um movimento estranho com a boca, como se a língua estivesse inchando e querendo sair; os olhos saltados e estrábicos – mas o Tio era mesmo estrábico, coitado – e um som ainda mais esquisito que parecia com o que a Letrinha fazia quando os gatos da vizinhança ficavam querendo entrar na casa. Beto – carinhosamente apelidado assim pela Babá –, já com seus dois anos, bocejou e saiu andando pela casa atrás de algo mais divertido. Frustração do Tio, que tinha passado algum tempo à frente do espelho bolando uma careta para assustar Beto. Tornou-se um objetivo quase fundamental para o tio Arlindo. Pena que ele nunca conseguiu concretizá-lo. O que mais ele queria? Em se tratando do nosso garoto, era de se esperar tal reação. Enquanto as outras crianças choravam com medo dos cachorros grandes, ele afagava-lhes as orelhas. Enquanto as outras crianças dormiam com a luz acesa, ou na cama dos pais, com medo do Bicho-papão; o Bicho-papão que tinha medo dele e ia se esconder no armário. Coitado do Bicho-papão! Beto não sossegou até expulsá-lo do seu armário. Onde já se viu? No seu armário um Bicho-papão medroso! Ele que fosse procurar outro lugar para viver, estava abarrotando todas as roupas de Beto.
Uma noite, ele fez tudo como sempre: escovou os dentes, colocou o pijama, fechou a porta, apagou a luz, mas não deitou na cama. Mexeu nos lençóis, porque sabia que, para alguém que anda no escuro, o Bicho-papão devia ter ouvidos muito eficientes, então ele teria que fazê-lo acreditar que estava deitado. Então ele esperou do lado de fora do armário. Esperou por algum tempo, mas não dormiu. Não podia dormir, ele tinha que pegar o maldito bicho que estava amassando suas roupas, não agüentava mais ouvir reclamação da Babá – e ela, bem como todo mundo, não acreditava que a culpa não fosse dele. Ele só tinha 5 anos, mas já sabia o que teria que fazer. Aguardou, aguardou, aguardou. Enfim a porta se mexeu medrosamente. Quando o Bicho-papão saiu lá de dentro, com a cara amarela de medo, nosso menino pulou nas costas dele com a fronha do travesseiro e cobriu-lhe a cabeça grande e feia. Amarrou as pernas e os pulsos do amassador-de-roupas, com as cordas dos piões, do jeitinho que o Denis ensinou no filme do outro dia. Ficou fazendo cócegas até que ele prometesse procurar outra moradia e nunca mais voltar, mas aí o Bicho-papão começou a chorar e disse que só queria ser valente que nem o Beto. E o Beto disse: “Você não pode ser valente que nem eu, pq eu sou um Valente e você é um... qual mesmo o seu nome?”, mas o Bicho-papão não sabia e saiu tristinho dali. O Beto ficou com dó dele e deixou que ele levasse um brinquedo, para não se sentir tão sozinho. Entregou o que ele mais gostava, inclusive! Foi a última vez que o Beto viu o Bicho-papão e o Leão de pelúcia – aquele do Mágico de Oz.
O brinquedo, porém, não fez falta por muito tempo. Logo Beto estava interessado em outras atividades. Conseguiu convencer a Mãe a comprar um skate. Foi um pouco difícil, como eu já mencionei antes, Beto nasceu com problemas respiratórios. Era um garoto insistente e criativo, acabou convencendo o Pai e a Mãe de que um exercício físico faria bem pra sua respiração, ainda mais um exercício que envolvesse tanta emoção – ele não conhecia a palavra “adrenalina” ainda. Com 13 anos, lá estava Bebeto – como era chamado pelos amigos do colégio – com seu skate debaixo de braço, escondendo da Mãe as tantas escoriações. Bebeto não tinha medo de cair, de se machucar, de andar de skate no meio da rua, ou de passar “voando” na frente dos caras-maus do pedaço. Aquele pedaço era de Bebeto, os caras-maus que não sabiam disso ainda. Quem se preocupava era a Mãe. À toa, dizia o Bebeto, mas ela sabia que não. Sabia que toda a valentia de Bebeto não ia salva-lo de algum perigo, ia, na verdade, empurra-lo para o perigo. Ele não tinha medo de nada e isso era muito amedrontador para a Mãe. Era uma boa mãe, claro. Nunca deixava de se preocupar, nem de notar o que acontecia a seu filhinho; mas Bebeto, às vezes, achava que era exagerada. Afinal, já tinha seus 14 anos. Já era um rapaz. Por que a Mãe ainda teimava em brigar se ele ia andar de skate no bairro vizinho? Devia ser ciúme. A Mãe já devia ter reparado que o Bebeto andava suspirando pelas beiradas da casa.
Ah, que agora nosso Valente estava em maus lençóis! Nem sabia pra onde olhar quando a mocinha chegava. Fazia tanta bobagem que ela ficava com raiva dele e ia embora. Mas também! Pode ficar arengando? Pode ficar puxando a menina pela roupa? Pode falar alto e ir fazer acrobacias aterrorizadoras só pra ela ficar olhando? Ela ficava com medo que ele caísse e se machucasse. Brigava com ele. Brigavam os dois. Ela ia embora e ele ficava emburrado, depois suspirava. Ai, que queria ter coragem. Todos pararam o que estavam fazendo: Roberto Valente estava, agora, medroso? Logo o Roberto? Foi um rojão essa informação e ele nem sabia como ela tinha se espalhado de forma tão rápida. Parou de ir andar de skate. Ah! como tinha vergonha de ir pro mesmo lugar que a garotinha. Nunca sabia o que dizer. Tinha virado um bobo, um medroso, um frango. Claro, não tinha medo de mais nada, só da garotinha. Mas, também, se defendia, ela tinha aquela trança comprida que ficava balançando de um lado pro outro como um dessas foices de armadilha mortal! Ela tinha aquela franja partida que quase entrava nos olhos puxados; olhos de rasgo, olhos que rasgavam o Roberto.
Estranho como, agora, Betinho passava horas dentro do quarto. Encostava a porta e só saía se fosse pra comer. Não ia mais no bairro vizinho, nem andava mais de skate. Era tão quieto, agora. Estaria doente? A Mãe comentava com o Pai o tempo todo como Roberto estava diferente; como tinha sido rápida a mudança. Tentava perguntar o que havia acontecido, mas o Betinho não dizia nada. Estava bem, estava bem; só com alguns projetos que precisavam ser amadurecidos na mente ainda. As notas no colégio iam as mesmas, mas o Betinho quase não era mais visto passeando por aí. Amadurecendo idéias. No quarto, tantas e tantas folhas amassadas e riscadas que cobriam o chão. Uma bagunça, meu Deus, uma bagunça! A Babá marcava as horas com seus gritos pela casa. Como pode? Como pode? Já é bem grandinho, pra sujar tanto, Roberto!, ela reclamava, antes de mandar que ele juntasse tudo no cesto do lixo. Ele ia. Juntava. Amassava ainda mais. Queria queimar tudo aquilo, mas não. não seria uma boa idéia, seus ouvidos, coitados, não iam agüentar as reclamações. Ah! queria entender porque não conseguia! Nada saía bom como aquelas coisas que ele lia. Mas não queria copiar! Não, copiar é para covardes e ele é um Valente! Empertigou-se e decidiu: se não consegue escrever, vai falar, vai fazer! Não era um poço de sensibilidade, mas tinha coragem de saber o que queria. Queria buscar lá no outro bairro, sem skate nem companhia. Só ele e sua valentia. Buscar a bem quista menina. Deus, como era difícil! Mal pôde olha-la! Foi-se embora.
Uma derrota seguida da outra. Sempre. Aquela menininha, que não era mais uma menininha, ainda conseguia meter medo no nosso herói. O tempo havia passado já tão comprido e o medo daquela boca alaranjada ainda estava em Betinho. Claro, ele havia cansado do skate e, agora se interessava por outras coisas: havia descoberto o prazer da linguagem binária. Todos aqueles zeros e uns.. 010100110. Só muita valentia para passar toda uma tarde decodificando dois números! Já lá nos seus 18 anos, algumas namoradinhas no histórico. Era um rapaz até bem apessoado, nosso Betinho. Não tinha medo de chegar perto de uma garota e, muito menos, de tentar a sorte. Eram todas binárias e fáceis de decodificar. Até não era nem tanto um desafio. Betinho não era o típico garoto safado, mas não era lá nenhum santo. Seminário passava longe de suas idéias. Celibato, castidade, solidão... não eram pra ele. Aos sábados, tinha a saída de semana. Descansar da faculdade, passear com alguma garota, beber umas e outras. Conheceu um pessoal que fazia pega de madrugada. Essas corridas de carro. Interessou-se pelo esporte. Não tinha medo de nada. Era o nosso Roberto Valente. E foi dessa forma que o nosso Valente foi encarar o poste de frente. Era raso como um pires, mas a menininha de olhos rasgados ainda tinha suas esperanças e ia visitá-lo no hospital. Tanta valentia tão mal aplicada. Ela só queria que ele sorrisse. Ela só queria que ele acenasse. Mas ele parecia não se importar com ela, sempre rodeado, sempre valente, sempre acompanhado. Ela queria que ele tivesse tido um pouco de medo e não fosse ao volante por preocupações na cabeça dela. Preocupações que um pente-fino não ia tirar. Feito cobrinha que passa pelos fios de cabelo, arrepiando as sensações de medo e ansiedade. Feito ponto que não acaba a frase, feito reticências...
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Da varanda
Começava a se sentir vazia. Entende? Acho que ninguém entende se não explicar. Porque não era vazia como todo mundo acha que é. Era o "vazia" dela. Aquele que enche e clareia e deixa tudo como um aquário sem água, com peixes flutuando, feito ela. Ela estava se sentindo vazia e podia flutuar dentro de si. Via os diversos mundos em cada uma daquelas janelas das quais se apossava sem nenhum pudor. E se alguém a visse bisbilhotando? Que importa! Não era bisbilhotice. Ela não era um deles; aqueles desocupados que bisbilhotavam e julgavam. Ela não julgava; na verdade, nem estava lá. Na verdade, nem se importava com as pessoas que a olhavam enquanto ela as observava em seus mundos paralelos. Era ela, dela, nela. Sempre. Esse tipo de egoísmo que ninguém entende, ou entende, não sei. Até mesmo ela, que sente, não sabe bem como explicar. Se ela tivesse o dom da palavra: escreveria.
Vontades, vontades. Eram tantas que já não havia mais nenhuma e só ficava com a cabeça encostada enquanto observava os mundos paralelos. Nem estava mais na própria órbita, flutuava dentro de si de mundo em mundo, bem longe. Mas era tudo dela. Até o que não era. E o que era, ela esquecia. Fechava os olhos e ouvia a música. Ou não. Acho mesmo que não ouvia a música, apesar dos parcos comentários. Na verdade, por causa dos parcos comentários. Pode-se flutuar num aquário cheio de música e mundos paralelos que o invadem pela janela? Pois flutuava, mesmo sem poder; se é que não pode.
Muito fácil sair de si. Muito fácil criar os Outros dentro do seu próprio inconsciente. Tão criativa, tão tão. Sensível. Mas não tinha o dom. Nenhum dom. Apenas o de olhar olhar olhar olhar. De se perder nesse pequeno nada que há entre o olhar e o olhado. Era seu egoísmo todo particular, todo nunca-egoísta. Falava para si. Olhava para si e sempre preferia continuar e flanar, mesmo sem saber o que seria isso. Quase se via. As varandas que agora a recepcionavam eram quase espelhos do seu mundo interior. A música acabou. O mundo, não.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Memórias
Desencantou-se de olhar a Pedaço-de-parede por um tempo; ela só sabia respirar fundo e abanar o rabo se ele lhe chamava o nome. Desviou a atenção e ficou algum tempo procurando o que olhar, naquele quintal. O sol lhe pedia que voltasse os olhos para dentro da cozinha, ou que deitasse sua mão em leque por sobre a vista e ele o fazia, sempre. O respirar da cadela vinha de dentro dele e lhe enchia os pulmões de preguiça e gordura cansada. Lembrava de quanto sentia falta desse respirar fundo que ia lá no peito dele buscar as células de impressões antigas; de quando não tinha o respirar cansado da cadela, mas o sentia ao lado, no amigo de nome desconhecido que fora baleado e já arfava de morte e risco de vida. Essas coisas de guerra que ninguém nunca sabe bem direito como é e sabe bem do jeito que foi porque todo mundo tem aulas de história, na escola ou na televisão-que-distorce-o-real. Mocinhos não morrem pra poder ter um final, ele não morreu. Ele não morreu. Ele duvidara disso por muito tempo, até sentir o respirar da cadela bem dentro dele, dando vontade de dormir e de tomar sorvete. E isso ainda nem o convencia tão profundamente assim, ia raso no pulmão. Ia só até onde a lembrança deixava alcançar o presente.
Nem ouvia mais os zunidos de qualquer daquelas armas que ele nem lembrava mais dos nomes todos; era o zunido do pernilongo que ia ter com a luz acesa e se queimava saindo voando rápido p´ra voltar burro para a luz e novamente se queimar. Ô pernilongo burro, ele pensava lá dentro dos botões, sem lembrar de ver as palavras. Era reflexo. Como tudo, desde que chegara da guerra. Sacudia a mão no ar, porque o pernilongo desistiu da luz e veio se alimentar de algo que não queimasse. Sugou talvez meio mililitro – quanto seria isso? – do sangue que sobrara da guerra. Ele não o matou. O pernilongo continuou voando, mas esquecera a luz. Um zunido chato de um lado pra outro, e ele sabia bem de que lado vinha dessa vez, podia espalmar as mãos uma na outra no exato lugar do pernilongo e acabar com o zunido. Vinha vindo de cima para baixo, mas desviava a rota fazendo oscilações. Era sempre mais alto e mais forte perto do ouvido. Passava fazendo brisinha fraca nos pêlos do braço e nem se deixava desaperceber, nem se deixava notar demais. Era tanta coisa zunindo dentro da sua cabeça e o pernilongo nunca mais o deixava em paz, já tantos anos nesses minutos, ô pernilongo chato! ele dizia. Zuniam na sua cabeça as balas que saíam passeando pelo tempo e pelo ar, sem parar para admirar o que foram conhecer; estavam todas coelhos atrasados. “Estou atrasada! Estou atrasada!” podia ouví-las, a cada uma, dizendo enquanto passavam zunindo o cinza. Iam voando, jogadas, reboladas, arremessadas, sei lá o que! ele pensava. Tinha vontade de sacudir o rabo que nem aquele cavalo da fazenda que ele ia sempre. Mastigar ração e abanar o rabo. O pernilongo talvez fosse embora se abanasse o rabo de cavalo. E o zunido das balas. Era tão difícil abanar o rabo p'ras balas. “pá!”, maldito pernilongo, ele pensava. Ele mata um pernilongo, ele sim.
Descansou de lutar contra o pernilongo e desistiu do zunido que ainda ficava dentro dos seus miolos, feito miolo de pão partido e enchido de manteiga e carne moída. Agora dava pra esquentar a cabeça. Não era esquentar e ficar nervoso de gritos no vento parado; aquele esquentar que a gente bota a cuca debaixo do chuveiro pra continuar conseguindo pensar em algo. Dava pra esquentar a cabeça pra por debaixo do chuveiro. Pensava demais, agora, sabe Deus lá em quê ele pensava tanto, porque ele não desenhava as palavras, esquecia de vê-las e só pensava. Isso acontecia sempre, era um reflexo, parar e fingir que estava pensando pensar em algo que não desenhava na mente. A cabeça agora dava pra esquentar. Não era nem velho, mas nem novo não era mais, que idade ele tinha agora? Nem se podia dizer que estava se sentindo envelhecido, nem estava se sentindo, era essa a verdade. Todo dormente, de cabeça esquentada. Ia ficar careca, ia sim, de tanto esquentar cuca por pensar. Mas nem se sentia. Se o cabelo todo caísse de um pulo só, talvez, nem reparasse. Era metade do que fora. Menos. Era menos da metade do que fora. Mas não lembra ele o que um dia foi. Vontade agora de correr, e a cabeça queimando gigante. Correr para debaixo do chuveiro, apagar o fogo e os cabelos castanhos. Raspasse a cabeça a água não teria que passar pelo castanho dos cabelos para chegar à cabeça. O homem que estava lá do seu lado no regimento tinha a cabeça raspada, lá não era tão homem assim, era muito mais moço que ele. Nem rapaz, que rapaz já tem barba, era o menino que corria na frente da casa dele, atrás da bola de couro meio-rasgada. Um menino, meu Deus. Correu e foi pra debaixo do chuveiro. A cabeça queimava e crescia. Ô dor do inferno. Preta, traz aí um desses teus remédios, Preta, que minha cabeça dói. Era aquele tanque que fazia tanta zoada, e o menino da bola de couro era quem ia dentro do tanque. Não já matei o pernilongo? Tinha um pernilongo na sua cabeça, zunindo, zunindo. Queria abanar o rabo, galopar também, talvez, mas abanar o rabo.
Sempre fica um pernilongo na nossa cabeça, zunindo um bom tempão até que a gente consegue dormir, esquecer ou acostumar. É uma dessas coisas aí. Remorso, culpa, insatisfação. Era tudo da mesma cor. Éramos todos daltônicos quando... quando? Ele nem conseguia ficar num pensamento só, mas éramos daltônicos e estava tudo na mesma cor, feito farinha de trigo e mandioca vendida em feira, que vem tudo ensacada junto. Daí aquelas com caroços grandes que a gente tem que penerar. Ou não. Ninguém nunca conseguiu provar isso, mas ele tinha certeza que as farinhas vinham misturadas naquele saco de plástico com um carrinho de mercantil desenhado em azul. Depois de prensada nem dá nada que ninguém mais duvida da qualidade. E é bom, o pior, é bom. Ninguém nota. Mas ele sempre sabe: é misturado. Todo mundo é daltônico ainda, então. Existe daltônico de língua? Lembrou-se de um rapaz que perdera o paladar por usar muitas drogas. Na verdade, como isso acontecera? Ele lá sabia, não perguntou, nem estava prestando atenção. Essas informações que entram na nossa cabeça sem a gente ouvir, só porque estão sendo ditas na nossa frente. Foi isso. E o rapaz nunca ia saber a diferença entre a farinha de trigo e a de mandioca? A Preta dizia que ele era doido, que farinha de trigo era massa de bolo. Que ele lá entendia de cozinha. A Preta. Magra. Moça. Não, a Preta não era moça, nem de nenhum jeito a Preta era mais moça. Já tinha aquele requebrado de mulata, devia mudar-lhe o apelido? Qual era mesmo o nome da Preta, afinal? Devia estar escrito na carteira de trabalho, se ela a tivesse. Não era ele quem lhe dava o salário. Era a mulher. A mulher cuidava de tudo na casa, e ele só ia pra guerra , ele só voltava da guerra. Já devia fazer uns 6 anos – era mais, era mais – que ele passava os dias voltando da guerra. E a mulher sempre esperando, com o lenço branco na mão pra quando chorar, mas não o usava mais. Ele não a via mais usá-lo. Esperava-o sempre, na cama, na cadeira. Olhando. Olhando. Por que ele não entendia mais os olhares da mulher? Ele lembrava o nome dela também? A Preta era Iracema. Estranho, ela nem era índia.
A água era tão estranha, agora. Era igual. Não deveria ser. Estava tudo tão igual. Não deveria estar. A mulher ainda tinha aqueles cachos lisos que lhe desciam pela face de camponesa rosada, as mãos ainda ostentavam anéis grandes nos dedos finos, que mãos delicadas ela sempre teve. Ainda as tinha: as mãos delicadas. Era amarela, não, era parda. Parda rosada, pode? Pode, porque ela era parda-rosada antes de ele ir para a guerra. Não deveria ainda ser parda-rosada, mas era. Que cor deveria ser afinal? Qual a cor dele antes e depois da guerra? Acho que branco-sujo, que nem a minha cadela que não sai de perto do muro. Estou branco-sujo e ela continua parda-rosada. Era tudo tão de uma cor só, Preta, que a cor era diferente. Não, a Preta nem olha, nem ouve, nem está aqui. Ele nunca fora daltônico; também, era de reparar em todas as cores diferentes, mas queria que mudassem. Não mudaram. A água ainda era daquele jeito, daquela cor transparente que vem descendo pelo corpo sujo da gente e fingindo que vai limpando, só porque parece levar o peso todo e o incêndio da cabeça, não era por isso? Começava transparente e terminava branca da espuma do sabão. E era sempre tão barrenta, que quando tomava banho, nem se sentia banhado, mas que paranóia.... ia mesmo se deitar no chão outra vez e fingir que nunca dissera que não mataria ninguém na vida. Matara. O pernilongo, sim. Por ter matado pernilongos, pernilongos estavam na sua cabeça. Era bom voltar da guerra e ver que tudo ainda era seco e áspero e pardo-rosado. Não quero mais o remédio, Preta. Deixa doer.
Às vezes, quando era criança, nem tão criança mais assim, ficava maquinando um pedaço de tempo lá na varandinha da casa da bisa. Maquinava e traquinava sem fazer nada. E a mãe só olhava e ficava apreensiva, porque logo vinha alguma coisa quebrada ou sangrando ou chorando. Mas nem era. Coitado dele que só maquinava, e nem saía fumaça da cabeça ainda, só agora é que parecia que ia sair. Ficava pensando e olhando. Não que fosse danado, mas era criança de correr. E, ficasse quieto, a mãe pensava logo que estava doente, ou que estava tramando arte maior. Ele estava lembrando disso agora, que ficava pensando que tinha alguém olhando. Já tem um tempo, viu na tevê um filme de um cara que era olhado todo o tempo. Como era mesmo o nome do filme? Era um que era tudo um filme, a vida do homem era um filme, nesse filme que ele viu. Se tivesse visto isso quando era criança, teria ficado ainda mais tempo pensando. Era isso que ele achava, mas nem sabia o que era filme direito, ainda não sabia, nem hoje. Então só achava que estava sendo olhado. Passava a formiga que ele pegava com os dedos e sempre perguntava, sempre. Quer uma pipoca? A formiga o olhava, será? Que paranóia. Coisa de criança. Se já conhecesse a cadela diria já que ela ria. Coisa de criança. Talvez se o menino do tanque visse a cadela, dissesse a mesma coisa. Uma criança, meu Deus. Nem tão criança assim. Mas como não? Seu filho já tinha 21, uma criança, isso sim que ele era, uma criança! Uma criança que gosta de ficar sentada na varandinha da bisa pensando na melhor forma de assustar as galinhas lá no quintal. Ah, essa era ele.
Desobedecia regularmente aos adesivos espalhados pela casa, pela esposa politicamente correta. Era sempre deixando tudo aberto, aceso e ligado. Gostava de ver tudo iluminado, aberto, com barulho de água caindo. Só as janelas ficavam fechadas, de persianas abertas. Parecia até que não estava em casa, nem mesmo no mundo. Amplidão. Ficava tudo tão amplo que ele podia nadar. Piscina, não, oceano. Ah! como a casa virava um oceano com todas aquelas portas e gavetas abertas. Que vontade de nadar na casa feito um tritão. Sair abanando a calda de peixe pelas frestas de sol que entravam pelas persianas e vinham fazer magia na poeira da casa. Passar o corpo nadando por essas penetras, meio que Deus. Que nem era nos desenhos d’A Bíblia em Imagens com aqueles feixes de sol vindo escolher o cara da arca. Ele bem queria ser tocado que nem aquele cara. Se Deus fosse se manifestar para ele, seria em feixes-de-sol penetras. Desses que vêm perturbar a poeira da casa. Desses que vêm atravessar a água do chuveiro, a água do oceano. Mas acontece que o cara lá era politicamente polido também. Se a luz viesse escolher alguém, talvez fosse a sua querida com seu lenço branco pra quando chorasse, aquele que ela não usava mais. Ele não era politicamente correto feito ela. Não consigo ser politicamente, polidamente, correto, querida, desculpe. Quando estava lá naquela cerimônia estranha e chata, sem significado nenhum que lhe tirasse os tiros da mente, foi um cidadão polido. Fui politicamente correto, então. Tem as medalhas que lhe dizem isso. Honras que mereceram idas ao dicionário. Deve-se ser polidamente político para matar pessoas em nome da guerra, digo, em nome da paz, claro. Vontade de levantar bandeira branca, que nem o Pernalonga. Não matar pernilongos com inseticida. Vontade de deixar os pernilongos voarem e só precisar passar creme repelente. Alguém covarde é polidamente incorreto, né. Deixa a luz acesa e a água escorrendo, só pra ter vontade de nadar, de noite também. Não mata pernilongos. Eu sou polido e político e correto, sou, né?
Já nem se importava mais com tudo o que antes lhe causava nervosismos. Toda aquela coisa de antes, tudo o que fazia parte de quem ele foi. Mas então, não era mais? Não sou mais. E quem foi? Já nem sabe. A verdade era apenas essa: nunca voltara da guerra. Ele se esquecera de si lá: naquele tiroteio, no meio daquelas mortes, entre aquela fome, perdido em meio ao desespero, matando pernilongos. Ainda estava por voltar e nunca voltava. Herói de guerra que era, nunca mais voltava. Continuava. Seguia. E quem estava ali, olhando, pensando, esperando, tentando; quem estava ali nem ele sabia mais. Era Ele, um ele que ele desconhecia. Talvez um ele que o esperava voltar. E a mulher lá estava, com seu lenço branco na mão, pra quando chorar. A cadela continuava respirando a tarde quente e cansada de verão, esperando ser chamada pelo nome de gente pra abanar o rabinho. A Preta ainda estava lá cuidando de tudo, sem descuidar das roupas, da casa e da comida. E o pernilongo... só esse sabia onde ele estava e sabia bem onde ferroar.
domingo, 23 de setembro de 2007
Palacete
A voz rasgada era despejada sobre a sala, sobre o mau-gosto da mobília, sobre as aranhas e sobre as teias, sobre os tapetes baratos e carcomidos, sobre os vasos com remendos grosseiros, sobre as flores de plástico em arranjos desfeitos e sobre a poeira que quase escondia as fezes das moscas nas gotas d´água, simuladas com cola-isopor. Nos quadros desconhecidos, a voz se chegava, desordeira, e bagunçava com os cupins das molduras estragadas, penetrando pelas falhas e se apresentando às pinturas, sem saber se por ali se instalava ou se ia dar umas incertas pelo mofo que se tornava visível nas cortinas finas que deveriam estar esvoaçando, como qualquer outra cortina fina.
Todas as janelas estavam fechadas, lacradas, há tanto tempo que já não havia como identificar a hora do dia, da noite ou se o barulho abafado e crepitante era de uma chuva ou apenas a vitrola apontando a própria velhice. A umidade jamais poderia ser identificada como um indício a favor da chuva, posto que, as portas, também, não tinham a rotina de serem abertas para que entrasse um mínimo de qualquer-coisa naquele lugar. As infiltrações não se faziam notar aos mais desatentos, tampouco aos mais poéticos, não que o cômodo recebesse muitas visitas, na verdade, desde o fim dos anos 90 ninguém se aventurava a passear por ali, ou fazer companhia para a pessoa que lá vivia, seja lá quem fosse essa pessoa, mas porque elas se confundiam com a decoração. Entre as flores amareladas-de-velho do papel-parede, eram traços que oscilavam entre o grosso e o fino, eram rios que desagüavam em algum rasgo ou pedaço desgastado de uma e outra flor mais desabrochada ou mais manchada.
Cartola drogava-se na agulha da vitrola. E largava uma voz de bolero cubano, caindo pelos cantos da boca e rasgando a resistência que viesse. A cachaça vibrava o ar em ondas de som materializado, sentado à cadeira velha de madeira talhada; à esquerda do aparelho, à volta do aparelho e jorrando notas no teto, nas paredes, no chão, nas portas, nas janelas, nos bichos; confrontando-se com os móveis aristocraticamente distribuídos em ângulos não-calculados de um quadrado invisível. Pairava pelo sofá grande e puído, sentando-se, encostando-se no desgastado e rasgado tecido vermelho-velho-e-abstrato que cobria o assento e o encosto; simultaneamente, descia às pernas amadeiradas e comidas, deslizando nos fios d´ouro-falso que pretendiam desenhos nobres e refinados.
Podia-se projetar um corpo estendido no chão manchado de tempo e cobrir-lhe as têmporas e o juízo com notas embriagadas de um amor que se asfixia de saudade. Podia-se lançar-lhe ao lado um copo quebrado e restos de whisky barato; um e outro cubo de gelo derretendo-se sob a pressão mortificante da música que nunca mais terminava. O ar vibrava sobre o corpo: uma das pernas sobre o tapete duma cor estranha e desconhecida, a outra em posição não regular, de quem dorme, escapando para cima do banco-para-pés, cor de sabão velho. Tudo destoava do lugar, e tudo combinava com a música. Um palacete de único cômodo, velho, puído, estragado e desgastado; de beleza escondida e encardida. Possuído pela voz furante do velho que entrara sem chegar, o viciado da vitrola, espalhando-se em tons de rasgo derramado, feito baba, feito raiva de cachorro sem vacina, feito gente que não sabe o que quer.
E ia, esse som que a gente até poderia tocar, pelas paredes, cheirando o mofo das flores-amareladas-de-velho, conhecendo os cantos e rodapés, até, enfim, chegar ao seu ninho de álcool envelhecido muitos anos nos tonéis de madeiras diferentes e escolhidas por algum doente especialista em bebidas. Protegia suas garrafas, do corpo jogado no chão, ali do outro lado daquela sala estranha do século passado. O corpo, projetado pelos sons dos instrumentos de corda que pousavam no vinil inquieto, estava tão real, neste momento que já passou. Era de osso e carne e whisky. De juventude, de pele esticada, de rosto limpo. Fazia inveja aos desenhos e detalhes do lugar e o lugar o embriagou em terror, história e lassidão. E o Cartola só zombava do coração que não batia, do jardim adubado de mofo e infiltrações e das visitas que não chegavam. O Cartola aproveitava, agora, teria o whisky e a cachaça, teria a agulha da vitrola e poderia drogar-se até acabar a música.
domingo, 8 de julho de 2007
O Sorriso da Moça
Rolava no chão de pétalas murchas e mal distribuídas. Urrava. Não ódio, pois que não era ódio o que Rosa estava sentindo. Algo confuso, algo de decepção, algo de desistência, algo de insônia, algo de medo e de alguma-outra-coisa. Transpirava esse algo que largava em sons pelo pátio pequeno do condomínio. Não se notara sozinha, estava sonâmbula na decepção de outro gozo imperfeito. Aturdida às tantas-horas da matina, largada na própria saliva e em suas vestes descompostas e parcialmente jogadas pelo chão.
Lembrava em lampejos os inúmeros casos e as inúmeras vezes em que buscou o deleite do contato íntimo e sofria, ali, deitada, como sofrera o Cristo virgem na cruz dos ladrões. Ele sofrera com resignação, por um bem maior e assim ela sempre fizera. Sofrera as mais atrozes dores, de objetos e de sentimentais fatos, em prol de um regozijo jamais alcançado.
Perdia-se, agora, em momentos tão claros que desfilavam à sua frente, passeavam pelo pátio, entre as rosas, sobre a Rosa, indiferentes à presença dela ali. Via seus cachos curtos e repicados balançando ao som da sua gargalhada, sua camiseta branca com uma alça displicentemente caída ao ombro e seu rosto livre de qualquer contorno maquiado.
- Ei, Rosa, quero falar com você.
- Só se me pagar um sorvete.
Lá se ia, com seu ar nunca sério, de um deboche inocente que não escarnece nem menoscaba. Tinha um rosto de menina brincante e saiu abraçada ao ombro do incauto desavisado que era o convidador.
- E o meu sorvete?
- ´Tá. Chocolate, né?
- Não, biscoito, com cobertura de chocolate.
Ela gostava mesmo era do sorvete de chocolate, mas gostava de discordar, pra se sentir dona da situação. Ou gostava de discordar pra discordar. Tudo isso que todo mundo sempre diz de ser imprevisível e não consegue praticar. Ela não era mais isso ou mais aquilo, era autenticamente comum, como todas as outras meninas. Costumava nunca perder-se em divagações e ir direto ao que interessava: o sorvete.
A cena ia se tornando difusa, mistura de brisa e orvalho, e dava lugar a uma outra época, outra idade, outra Rosa. Um mascar ruminante, sem digerir e sempre voltando aquele gosto à boca, gosto de degustação repetida. As Rosas quase se cumprimentavam entre uma e outra alucinação e, do forno microondas, o cheiro da pipoca já vinha forte para acompanhar às cenas que se seguiam, sem qualquer possível percepção de lacunas entre elas; a lógica, qualquer que fosse, apenas a Rosa saberia, quando voltasse às suas saudáveis faculdades.
O cheiro forte da pipoca de microondas que vinha daquela caixinha branca, com aquela janelinha por onde Rosa olhava a vasilha girar e os filhotes nascerem. Aqueles muitos ovinhos amarelos de onde saíam as pipocas. As pipocas não gritavam, nem pareciam sentir dor e eram saborosas. O pai colocava todas na vasilha branca com desenhos de passarinhos e derramava manteiga-derretida em cima, ficava tão bom. Mas Rosa gostava era de ver o pai fazendo as pipocas, no forno microondas. Sentava no colo do pai pra assistir ao filme.
- Minha princesa!
Era assim. Todos os dias. De manhã e todas as horas.
- Hora de acordar, princesa.
- Vamos passear, princesa?
- O que aconteceu, princesa? O que está fazendo?
Sempre assim.
Via-se outra Rosa. Via-se incerta, convencendo-se da própria beleza tranqüila, indo conversar mais afastada do grupo, logo ali, atrás do carro. Via-se mexendo nos cachos, prendendo os longos cachos castanhos, soltando os castanhos-cachos-longos e pondo-os por trás da orelha direita, sempre a direita. Eles, os cachos, enganchavam em seu brinco e voltavam para a frente da orelha, por cima da bochecha, quase corada, e ,quase, cobrindo os olhos-de-cílios-sutilmente-destacados. O caminho até o carro, passando pelo chão úmido e pelos lances de luz vindos dos postes, cruzando as folhas secas que caíram das árvores e mesmo as próprias árvores que balançavam em movimento coreografado pelo vento, era, por si, balé de passadas e bamboleios, repensados, nos quadris.
Em um pulo do tempo disfarçado de gato dengoso, passando por sobre as pedras e as plantas dos canteiros, esgueirando-se dentre as Rosas e observando com aquele olhar de desaprovação velada que os gatos todos têm, via-se de olhos e pernas e braços e mãos e cabelos e seios beijados e extasiados. Via-se tomada à força voltando da escola. Via-se lutar contra as mãos e os lábios que a mapeavam; E confrontar-se entre o inevitável prazer e o religioso pecado do crime; E deleitar-se, largando-se nas forças daquele desconhecido.
Ah, via-se como só se sentira uma vez e tornava ao urro dramático. Jamais souberam do ocorrido, pois que Rosa sentia falta e não pretendia punir, mas, sim, reencontrar. A princesa do pai cresceu e não virou rainha. A não-rainha agora, rolando no chão, enxovalhada, rasgada, destruída e dramática, estrelava um filme de quinta categoria, com gritos de desespero e choros esganiçados. Tinha uma mente deturpada que distorcia as mais simples materializações do imaginário humano: um livro, um pente. Tudo era ponto de partida para uma alucinação pervertida.
Era, agora, a Rosa de cintas-liga, de cabelos longos, de unhas vermelhas, de pernas compridas, de festas, de bebidas, de cigarros, de homens e de mulheres. Viajou no tempo e cortou sua história, encontrou já a Rosa de sorrisos sedutores e gozos aturdidos. Olhava essa Rosa imponente-impotente com tristeza e com curiosidade. Saber os motivos e as razões.
Tantas e tantas e tantas formas e livros-e-preces-e-cores-e-sabores-e-gestos-e-sexos-e-espécies-e... tanto. Sua maquiagem desfeita em todas essas tantas experiências, não lhe dizia o total prazer. Eram gritos e unhas e dentes e respirações entrecortadas, a falta da respiração. A carne que buscava o sorriso da primeira visita, já machucada, já calejada, já visitada por tantos e estranhos transeuntes e seus variados objetos.
Uma rosa enrubescida, de espinhos caídos e caule frouxo. Rosa ainda buscava. Insistentemente buscava, mas nunca encontrava. Sentia-se dolorosamente, de uma dor ardida, de uma dor cortante, furante, trucidante, destruída pela busca. Gritou, urrou, caiu. A manhã encontrou um jardim de rosas murchas e Rosa rasgada e vermelha, como o chão sob si. Uma ninfa. Uma louca. Era a virginal vermelhidão dos prazeres de Rosa. A Rosa dos sorrisos e prazeres. A Rosa não satisfeita.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Profissão de fé
Era ainda cedo e o sono não acontecia em Carmelita, apenas o anseio a habitava. O sol enfim já tão claro e tão pontual. Sem marcas no rosto, sem manchas na pele, sem nódoas no copo. Era a Carmelita de todos os dias. Enquanto não chegava a noite com sua verdade. Era então a funcionária do mês. O exemplo. Era o sol: pontual e clara. Tão clara que sua pele negra reluzia, tamanha a clareza de suas palavras. O troco. A nota. O volte sempre. Principal opção para gerência. Carmelita só queria que anoitecesse.
Era ainda cedo da tarde, Carmelita acabara de almoçar e já pegava a bolsa, os livros e os cadernos. Ia para a faculdade, onde estudava o próprio comportamento, a psicologia dos vencidos, a mente dos falidos, o pensar dos manchados pela fé no ofício de ver os dias e viver as noites. Agrupava os transeuntes de acordo com o aprendido nas salas decaídas daquela universidade federal. Procurava seu próprio grupo, entender-se para entender o alheio a si. Ler-se e aos seus gestos para decodificar as mensagens dos gestos vistos pelos olhos afora e de fora dos olhos.
Cansada da espera, enfim se larga no seu sofá estrategicamente preenchido por almofadas e adormece – mais uma princesa a cair, a anti-heroína romântica, a heroína realista, talvez... a literatura já se embaça no seu subconsciente. Duas horas. Três horas. Quatro horas. Dorme pouco. Já agora sai do banho. Não mais sol, agora lua, tão pontual quanto e ainda mais intensa e fulgaz. Frente ao espelho marca o rosto, mancha a pele e prepara o corpo para outra vez ser escrito. Apagara durante o dia as letras escritas em suas coxas – o livro todos os dias recomeçado em sua tão negra anatomia. Preparava-se para receber as nódoas de que se envergonhava e de que tanto sentia falta. Carmelita saía para executar sua profissão por dom; seu trabalho, seu ofício; seu lazer. Um relógio, pontual e gratuito. Carmelita marcava as horas em sua pele.
Histórico
as primeiras ideias...

