segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Da varanda

Lá estava. Na verdade, nunca estava em lugar nenhum, mas flanava por todos os cômodos. Era tudo seu. Nem morava lá e era tudo seu, mesmo o que não estava ao alcance dos seus olhos curiosos, dos seus redondos olhos de boneca curiosa. Ah! se tivesse o dom. Escreveria linhas, páginas, livros. Tudo porque já via como era do outro lado também. Era tudo igual, tudo a mesma coisa, em todos os lugares. Tudo seu. Queria poder fazer arte com tudo aquilo de que se apossara com os olhos curiosos. Mas não era artista, não sabia ser. Não queria ser, queria sim. Então apenas flanava. Flanava sem saber o que era exatamente flanar. Ouvira alguém muito inteligente e culto usar essa palavra e apossou-se dela também. Gostava de se apossar das coisas e lhes dar novo significado, mesmo que não mudasse.

Começava a se sentir vazia. Entende? Acho que ninguém entende se não explicar. Porque não era vazia como todo mundo acha que é. Era o "vazia" dela. Aquele que enche e clareia e deixa tudo como um aquário sem água, com peixes flutuando, feito ela. Ela estava se sentindo vazia e podia flutuar dentro de si. Via os diversos mundos em cada uma daquelas janelas das quais se apossava sem nenhum pudor. E se alguém a visse bisbilhotando? Que importa! Não era bisbilhotice. Ela não era um deles; aqueles desocupados que bisbilhotavam e julgavam. Ela não julgava; na verdade, nem estava lá. Na verdade, nem se importava com as pessoas que a olhavam enquanto ela as observava em seus mundos paralelos. Era ela, dela, nela. Sempre. Esse tipo de egoísmo que ninguém entende, ou entende, não sei. Até mesmo ela, que sente, não sabe bem como explicar. Se ela tivesse o dom da palavra: escreveria.

Vontades, vontades. Eram tantas que já não havia mais nenhuma e só ficava com a cabeça encostada enquanto observava os mundos paralelos. Nem estava mais na própria órbita, flutuava dentro de si de mundo em mundo, bem longe. Mas era tudo dela. Até o que não era. E o que era, ela esquecia. Fechava os olhos e ouvia a música. Ou não. Acho mesmo que não ouvia a música, apesar dos parcos comentários. Na verdade, por causa dos parcos comentários. Pode-se flutuar num aquário cheio de música e mundos paralelos que o invadem pela janela? Pois flutuava, mesmo sem poder; se é que não pode.

Muito fácil sair de si. Muito fácil criar os Outros dentro do seu próprio inconsciente. Tão criativa, tão tão. Sensível. Mas não tinha o dom. Nenhum dom. Apenas o de olhar olhar olhar olhar. De se perder nesse pequeno nada que há entre o olhar e o olhado. Era seu egoísmo todo particular, todo nunca-egoísta. Falava para si. Olhava para si e sempre preferia continuar e flanar, mesmo sem saber o que seria isso. Quase se via. As varandas que agora a recepcionavam eram quase espelhos do seu mundo interior. A música acabou. O mundo, não.

5 comentários:

Anônimo disse...

Muito bonito!
O que é flanar pela própria mente?
Mover-se sem sair do lugar!

"Tão criativa, tão tão".

Marcelo!

JD disse...

Muito bom!!! Enigmático e encantador na medida! Me lembrou um livro que li faz uns dois anos, chamado "Coraline", do Neil Gaiman. Se você não leu, me deixa um scrap que eu te mando! ^_^

;**

Normando Laube Santos disse...

E assim, como ninguém mais consegue, você consegue expressar com clareza as coisas que eu venho pensando e não consigo nem sequer falar que penso.
Tudo sempre assim, tão... Tão... Subjetivo, como se pudesse ser qualquer um (o que na verdade é) e acabo tomando as palavras como aquilo que eu sinto... Não é muito diferente agora, faço das suas palavras o meu pensamento... E flano longe, sem nem sequer me lembrar de que tenho obrigações.

Mais um ótimo texto Bakizinhaaaa! =]
Parabéns! ^^

Kelyne disse...

;.;

eu li ó \o

sem comentarios babaovísticos... comento pessoalmente
XP
em uma palavra: perfeito

David Herculano disse...

Sehr gut.*

É bem... você, esse texto. É tão a tua cara que nem tem graça. :) Aber das ist nicht schlecht!*


*me pergunta depois, que eu traduzo.

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