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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

das podas e dos verbos

Está claro: o verbo dito é libertador e o não dito são saúvas na cerca viva sempre e todos os dias bem podada.

Salvador Dalí

Está claro: a poda, enquanto estratégia de cuidado, enquanto manutenção da saúde, está longe de ser saudável, podendo ser, quando muito - e, ainda assim, numa tentativa caridosa-quase-masoquista de se compreender o jardineiro (ou o chacareiro) - esteticamente necessária.

O galho liberto, a folha desenquadrada, o emaranhado, o excesso de desejo-vida-fruta-cor-flor, a desordem e o caos fecundos: está claro: não são apropriados para a estética-ética-sorridente de um jardim bem cuidado.

Está claro, ainda, que, liberta, com galhos e cores sobrando, viveria em natural simbiose com as saúvas e palmos de folhas não se fariam notar na cerca viva.

Está, então, muito mais claro que o verbo dito é a poda não feita. O verbo não dito são saúvas na cerca viva, abrindo caminho entre a liberdade para a possibilidade de se pronunciar; e abre palmos de buracos que jamais se fecharão em plano encontro com todo o resto da superfície podada.

Por isso, disse - já tinha alguns metros de buracos não recompostos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

(sobre a morte)

[...] poderia ser afinal uma fruta plenamente amadurecida que caía em tombo seco, a própria dor de desvincular-se da vida abafada pelas folhas há muito mortas (o ciclo consolando-se). [...]

Morte de Casagemas (1901) - Pablo Picasso

domingo, 4 de novembro de 2012

Lascas

Marc Chagall
Ser apenas frações de vontade e vontade de ser unidade já não me inteiriça mais. Agora é minha totalidade fracionada que, em lascas, me machuca e fragmenta mais a cada novo dia. Não sou ser completo, nem pedaços do que poderia ser. Sou o que foi um dia o tudo e hoje, em estilhaços e cacos e pó, não se emenda jamais. Por mais que tente.

domingo, 23 de setembro de 2012

da efemeridade dos fatos

É mais ou menos naquele momento em que a memória se perde em si mesma e passamos a lembrar não do que existiu, mas do que fomos durante uma existência, que as verdades nos parecem mais pungentes e mais irreais.

chagall

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cante para mim

Klint

[...]

A luz que entrava na sala era essa que invade as frestas com uma suave sensação de frescor, de sono satisfeito, embora ainda dengoso. Clara. Invasiva. Ainda que discreta. Em tudo havia um pouco de Amália. Em tudo havia Amália. No sussurro da manhã e na luz que acordava os cantos orvalhados do jardim, este, também, repleto dela.

... e, num suspiro, desejou o mundo todo além da sala: a vida inteira se derramando cristalina pela grama... os insetos nos canteiros... e o trinado distante dos pássaros nas copas dos pés-de-jambo. A poesia da manhã que começava a desvendar-lhe os ouvidos descrentes... sentiu falta da música.

- ...não me sinto vivo. Aí gemo.

Foi o que respondeu à mulher, naquela manhã.

Ela, num deslize, deixou que um olhar o questionasse o beijo apenas de leve correspondido. E tocava-lhe o corpo, penteava-lhe os cabelos, abraçava-o, beijava-o a pele limpa.

- Sinta.

[...]

domingo, 29 de abril de 2012


edgar degas - danceur
E fica uma certeza: o silêncio, à medida em que conforta, vicia e, vício que se torna, nos prende e mata lentamente, sem que saibamos porque morremos.


sábado, 14 de abril de 2012

Algumas palavras são cartas guardadas na gaveta, sem endereçamento, sem selo, sem lacre. Sentimentos que eu quis dizer, mas não quis que ouvissem. Uma parte escondida de mim, recheada de paixão, raiva, frustração e desejo pelos quais nunca quis lutar.

Algumas palavras são o silêncio que ninguém questionou, guardado em alguma caixa de minha estante.

terça-feira, 20 de março de 2012

A música


Tinha uma música abafando o sons do dia e, por trás da música, tinha risos que escondiam um segredo num diário fechado debaixo da cama; que, cúmplice do diário, escondia as molas fracas e as marcas no colchão e, passeando por tudo isso, pela música, pelos risos, pelo segredo pelo diário pela cama pelas molas fracas estávamos eu e meus gritos.

Tinha também um cachorro preto que, acho, me questionava sempre, tudo, mas nunca obtinha resposta, pobre do cachorro. Para ele, também, acho, a música existia naquela manhã abafando o som do pão no desjejum. Para ele, acho, naquela manhã, a música também abafava os sorrisos e os segredos e os diários e as camas e as molas fracas da casa toda porque ele me questionava.

Eu tinha dois olhos vivos fixados em mim e, bruscamente, sentia o som do dia novo, que descia meu corpo e se alojava na fralda, sem qualquer amparo meu, ou de meus gritosgemidosmúsicas.

E, por fim, tinha a minha mulher.

Éramos, então, eu que gritava, a música que abafava o som da manhã, o cachorro que questionava e a mulher. Para quem, acho, havia a música naquela manhã, que escondia as molas fracas do segredo cheio de sorrisos no diário debaixo da cama perdida no meio de sua manhã atribulada.

A mulher, que era minha, ouvindo meus gemidos, vinha ver o que eu queria e me passar o relatório da rua. Eu não queria. Não que tivesse escolha, mas eram muitas informações e eu me concentrava muito fortemente em controlar meu corpo. Que gemia.

E a mulher, supirava o cansaço de me cuidar todos os dias. E a música, como mãos que doem, parou.

Mãos



Desejo mãos que elevem meus olhos a outros sentidos. Mãos que, calmas, me colham o último pomo maduro. Mãos que, leves, retirem de mim as notas agudas de um suspiro. Desejo mãos que sejam olhos, boca, pele, muito além de tudo. Mãos que se estiquem em pontes unindo aos meus os desejos de alguém. Mãos que sejam mãos e tão somente.

Vaga lembrança

Estive pensando: que triste é não lembrar de si.

Maturidade

Engraçado que ainda treme, quando, aluno, toma a palavra.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011







Aquele beijo tinha gosto de sorvete derretido, que era o mesmo gosto do sorvete, mas cheio de impaciência para acabar logo. Impaciência disfarçada de riso.

 Escrever não é construir uma paisagem, é, antes de tudo, desconstruir uma paisagem. Escrevo não o que sinto, mas sim para sentir algo. Não escrever é me tornar ser difuso, inconsistente, etéreo, como uma paisagem estanque, que as brumas não impedem a visão, já que a visão já foi decorada... Não escrever é não pensar, é não sentir. É não existir.

Escrever é basicamente existir.


domingo, 25 de setembro de 2011

Nao é como uma bala, o dinheiro vai, a bala vem. É gratuito. Quando te amo é por te amar e não uma espécie de troca. É só por te amar. Por isso dói. Porque não aconteceu.

Foi o que ele pensou quando a viu passar sem voltar-lhe o rosto, enquanto casava de pés descalços. Enquanto esperava também ele a gratuitade de outra pessoa.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Trecho

Em tardes assim, em que parece que nada vai acontecer, em que se passa o tempo a olhar o tempo deslizando por entre o azul interminável do céu, imaginando cenas transparentes, etéreas, indescritíveis. Em tardes assim, em que nossos pensamentos passeiam incontíveis pelas copas dos cajueiros, arriscam-se pelas galhas velhas e frágeis em busca de memórias empoeiradas, em busca de histórias guardadas. Em tardes assim queremos fechar os olhos e abrir o relicário de árvores antigas, cheio de mitos e aventuras e casais enamorados; queremos deitar e respirar todas as lembranças alheias tomando-as para a nossa própria vida, no momento tão sem significado, tão miúda e sem copa, sem tronco... sem raiz. E parece que nos tornamos parte da tarde, do seu azul infindo, da idade repleta dos cajueiros e das mangueiras, e ganhamos raiz primeiro. Raiz que nos faltava, desequilibrando-nos em sua falta.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Azul

Ela se olha no espelho, reclamando de suas curvas e relembrando um passado mentiroso, no qual era infinitamente mais bela e mais desejada. Reclama, reiteradamente, de suas formas e de suas medidas, não desistindo mesmo quando os elogios começam a aparecer em vozes visivelmente irritadas. Perde seu tempo criticando sua própria silhueta dentro de roupas de boa costura, esticando com as mãos sua pele coberta de cremes e olhando-se no espelho (esperando elogios).

Ela levou uma vida e não percebeu o azul que a esperava, pendurado por todos os lados, espreitando de todas as frestas, insistindo em todos os tons. E era tanto azul, o azul que a espreitava, tanto. Ela nunca percebeu e perdeu o que a rodeava, perdeu os elogios para o azul que a desejava.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

nem sou a borboleta, ou
o passarinho. estou mais para
o risco que eles deixam
no ar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fernando

ela nunca disse isso, mas eu senti,
pela primeira vez, com ela, observando
ser escritor não é uma roupa de domingo
é uma farda.

E eu senti também.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Histórico


as primeiras ideias...