quarta-feira, 21 de abril de 2010

Àquela que nunca maculei

Lembro-me de ti no meu primeiro semestre da faculdade. Chegavas calada à aula, com esse teu jeito de não chegar, e permanecia da mesma forma toda o tempo e teu nariz me dizia tanto de quão além tu eras. E lembro bem fotografado, não pelos cabelos revoltos que me remetiam à sexualidade que nem mesmo tinha ainda atingido, nem mesmo pelos teus seios que me faziam sempre lembrar dois leões-de-chácara a guardar teu corpo todo.

Nem mesmo pelo ar bucólico e carregado de teus ombros, seguidos de perto pelo mistério das saboneteiras, e, sem querer decepcionar-te, também não te fixei pelas mãos pianistas, que figuram uma grande paixão de minha infância, claras, decididas, delineadas e, no entanto, totalmente intangíveis, que começavam em pulsos perfeitamente finos e subjetivos, com aquele ossinho a apontar "sou mulher" e terminavam em unhas que nunca ousarei descrever por não confiar desta forma numa capacidade poética tão falha quanto a minha.

Erras, se presumes que guardei-te, tão firmemente à memória de artista, a figura devido àqueles teus traços laterais, munidos de latente carne e emeados pelas pontas sensuais dos teus cotovelos. Não digo ainda do motivo que me faz guardar-te eternamente entre os cachos que me povoam a mente, prefiro falar, nesse momento de devaneio, da tua minuciosamente latina pele amarelo-queimado que comporta esses sinais esparsos e distintos e convidativos e distantes; sou, nesse instante, tão vontade de olhar e olhar para sempre um pedaço de tua pele.

E teu ventre... teu ventre sempre coberto que me traz à tona a maternidade futura, teu ventre oculto pela camisa me parece o lugar mais conciliador de teu corpo todo e me instiga a vontade - tão contundente - de te pedir que acolhas, na superfície dele, minha cabeça atordoada, mãe carinho paixão que resume teu ventre. O que muito me importa, não sendo, no entanto, o que me prendeu à tua imagem, é essa singeleza eminente que te cerca e que se explode toda em não-limites e que, até agora, não sei precisar se te toca ou se emana de ti.

O que tem a tua figura que, uma vez presente, me preenche inteira e me impede de não te amar toda essa tua feminilidade que nunca antes eu vira materializada? Aqui eu chego, finalmente - e muito cansada e muito satisfeita e muito embriagada de te admirar -, no que me faz nunca te esquecer e sempre tentar te retratar com tantos e diversos nomes e histórias e facetas. Não é ainda a tal feminilidade descabelada ou essa tua face invasora que vem sempre me encantar, de dor e sofrimento e bucolismo e transcendência.

É a poesia, que me chega por todos os poros e de todos os meios e que só não te usa por ser a tua aparição a perfeita materialização da poesia. Em meus livros de teoria da literatura já posso grafar, à caneta bem escura, que a poesia és tu, posto que tu és a pura e simples poesia.

2 comentários:

Eritania Brunoro disse...

Incrivelmente delineadas, tuas palavras se deixaram levar e levaram-me a imaginar tal cena. Uma descrição perfeita que remete ao leitor à imaginação das formas, dos detalhes retratados por ti.
Parabéns Rebeca, belíssimo trabalho.

luci disse...

Rebeca, nossa que texto lindo...
e me deixou super curiosa tbm...
parabéns

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