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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

das podas e dos verbos

Está claro: o verbo dito é libertador e o não dito são saúvas na cerca viva sempre e todos os dias bem podada.

Salvador Dalí

Está claro: a poda, enquanto estratégia de cuidado, enquanto manutenção da saúde, está longe de ser saudável, podendo ser, quando muito - e, ainda assim, numa tentativa caridosa-quase-masoquista de se compreender o jardineiro (ou o chacareiro) - esteticamente necessária.

O galho liberto, a folha desenquadrada, o emaranhado, o excesso de desejo-vida-fruta-cor-flor, a desordem e o caos fecundos: está claro: não são apropriados para a estética-ética-sorridente de um jardim bem cuidado.

Está claro, ainda, que, liberta, com galhos e cores sobrando, viveria em natural simbiose com as saúvas e palmos de folhas não se fariam notar na cerca viva.

Está, então, muito mais claro que o verbo dito é a poda não feita. O verbo não dito são saúvas na cerca viva, abrindo caminho entre a liberdade para a possibilidade de se pronunciar; e abre palmos de buracos que jamais se fecharão em plano encontro com todo o resto da superfície podada.

Por isso, disse - já tinha alguns metros de buracos não recompostos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Uma folha que caiu


Lembro-me dos almoços de finais de semana na casa da nossa avó. Bem amanhecia, sabíamos do que aconteceria: íamos passar o dia na casa da vovó. Eram favas contadas: almoçaríamos bife com batata, dessas cozidas no vapor da carne.

Lembro-me de que, naquela casa sempre limpa, sempre clara e organizada, havia uns almofadões decorativos com os quais nós os primos criávamos as mais diversas habitações e brincadeiras sob os olhares azuis e meticulosos da avó. E havia, também, uns ladrilhos azulados e uma atmosfera de aconchego e de história, como se a casa quase pudesse falar e demonstrar carinho. Por todo o lugar, o capricho e o cuidado dela: no tempero, no asseio, nas cadeiras da varanda, que deveriam, aliás, permanecer no mesmo lugar.

Lembro-me de minha avó constantemente ocupada e apressada em dar conforto, em preparar o almoço. E lembro-me da tagarelice: ela contando a todos as histórias de não-sei-quando-e-antigamente.


segunda-feira, 7 de março de 2011

de Retalhos - pela Paco Editorial, em breve

Consigo recordar, muito claramente, de uma temporada (e quando digo temporada, quero dizer uma semana, no máximo) que passei com a família em Parajuru. E quando digo família, quero dizer algumas pessoas que fizeram parte do meu crescimento, meus pais e irmãos e uma família que, de tão amiga, tratava como tios e primas. Devia ter em torno de 10 anos, ou menos... não tão menos, sem dúvida, porque lembro de já escrever meus versinhos rimados. Ficávamos abrigados na Pousada do Lobão, nome que nunca compreendi, enquanto criança, mesmo sabendo que o dono chamava-se Lobão, que nada mais era do que várias casas iguais, enfileiradas em diversas filas dentro de um terreno vasto e, bem no centro, um chuveirão onde fazíamos a festa depois de voltar da praia. O grande atrativo era a calmaria, ainda não era praia de carnavais e de estrangeiros, e a proximidade do mar. (Lembro de catar ostras, certa vez, e de cozinhá-las, e de achá-las muito gostosas apenas para não dar o braço a torcer e razão aos adultos). O portão estava quase sempre aberto, mas eu me negava a atravessá-lo sozinha porque, no chão, ele era feito dessas tiras de cimento com buracos fundos entre uma e outra, imitando um bueiro; tinha sempre medo de prender ali os meus pés e nunca mais soltá-los. Era uma menina medrosa, sou uma mulher medrosa.

Verdade que passei nessa praia idílica grande parte de minhas temporadas infantis. Verdade, também, que a que me refiro repetiu-se todas as vezes, desde que começara a entender o jogo de palavras que lia nas páginas da biblioteca. Do que me recordo com tanta clareza, no entanto, é de um fim de tarde em que, tomada de uma repentina e inusitada coragem (talvez apenas para receber elogios, talvez a faísca de uma profissão surgindo ali), peguei minha agendinha amarela dos "101 dálmatas" e comecei a ler os versinhos infantis que criava. Esse sarau improvisado, acredito, inspirou minha chamada prima, que começou a escrever outros tantos, além dos que ela já tinha. Lembro de ter sido uma noite agradabilíssima, na qual criei várias quadrinhas rimadas e todos achavam que eu estava apaixonada e eu me deleitava com a certeza de ter a impressão de todos nas minhas mãos, ou melhor, na ponta do meu lápis.

À agendinha amarela somaram-se outras tantas agendinhas, repletas de versinhos de amor, engraçados, tristes, enraivecidos, apaixonados e, em todos eles, meu regozijo em controlar a impressão do alheio. Passei das quadrinhas rimadas a poemas longos, cheios de um sentimento que não era meu, mas que eu catava aqui e ali nos suspiros amigos, nas leituras fantasiadas de estudo, nas experiências sempre muito mais interessantes do que as minhas, nas inusitadas revelações e em tudo que eu imaginava, mas que não tinha a menor sede de viver. Sempre tive muito clara em mim a necessidade e a certeza de que os retalhos que recolhia por aí eram cortes de tecido caríssimos. Os versos, no entanto, começaram a me incomodar. Aquela minha velha sensação de controlar o pensamento de todos acerca de mim estava tão fraca, tão embaçada. Não me dava mais tanta confiança. Passei a me sentir muito exposta, mesmo não sendo meus os sentimentos. O julgamento do alheio me incomodava, preferia que não soubessem da minha existência. E parei de mostrar os versos que tecia. E parei de tecer.

Meu diário, a que chamava "sentimentário", passou a ser a única manifestação da ponta de meu lápis. E li. Li tudo o que me chegava às mãos, até descobrir as possibilidades da internet, quando comecei a ir com as minhas mãos até tudo que podia ler. E foi lendo que senti a necessidade de escrever. Não mais aqueles versos de antes. No meu "sentimentário" havia tudo de que eu precisava. E escrevi. Desta vez, tornei-me uma ladra de galinhas, de limão, de goiaba, de vivências. Apropriava-me de tudo que via, ouvia, pensava, lia, enfim, roubava para mim o que eu não tinha e, somando ao que tinha, comecei a criar frases longas em longos parágrafos, palavras-frase e frases-parágrafo e personagens incorpóreos que, justamente por isso, não poderiam denunciar minhas fontes que, incorpóreas como os meus personagens, misturavam-se à minha própria vida, ao irreal dos meus devaneios e à realidade insípida da minha rotina e tudo deixava de ser real, de ser físico e passava a um plano totalmente seguro e à salvo do que qualquer alhio pudesse pensar de mim, porque ja não existia "eu" dentro do que estava escrito. Separei-me do rastro que meu lápis largava no papel de tal forma que pude perceber que não sou um retalho a compor uma toalha, mas, sim, uma toalha, composta de retalhos.

Hoje, com essas minhas manifestações oníricas, atingi um nível dos meu sonhos inexplicável e consegui materializar meus desejos com a publicação deste livro que me foi motivo de tantas noites de insônia e de tanta ansiedade e insegurança. Mas não venci meus medos, fui impelida pela necessidade de me livrar do peso que são tantos tecidos juntos.

Libertei-me e agora tenho medo de voltar para casa.


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Libertei-me e ainda não acredito no vento em meu corpo pequeno e nos olhares que me lançam: "Rebeca Xavier é uma leitora e escritora que transcreve para a matéria o imaterial do sentimento humano, feminino, inquieto, o fôlego profundo ou asmático que acomete a alma diante das flores e dos estilhaços de uma vida que explode e implode ininterruptamente. Sua literatura tem uma vida íntima, recôndita como uma pérola. Tem segredos que somente se insinuam ao leitor — insinuar-se já é toda a entrega.". Mesmo sendo o Fernando um poeta incurável.

domingo, 26 de setembro de 2010

Liberdade Clandestina

Eu, na verdade, consigo me lembrar de muito pouca coisa, assim, quando tento pegar pelo fio solto da lembrança, assim, de supetão, assim, do nada. Às vezes, parada, quase dormindo porque gosto muito de dormir, e nem sei se por causa dos sonhos que devo ter (que na verdade são recorrentes, se prestar bem atenção, mas imensamente difíceis de recordar), aí me vem um fustigado lá no bem-dentro, lá bem aqui onde não sei precisar e um pedaço do passado me aparece todo faceiro, todo querendo impressionar. De qualquer forma, de tão espevitado que me vem, não se mostra um fato, mas um pequeno recorte de algum momento. E foi assim que aconteceu, enquanto voltava para casa de carro com a minha mãe.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Àquela que nunca maculei

Lembro-me de ti no meu primeiro semestre da faculdade. Chegavas calada à aula, com esse teu jeito de não chegar, e permanecia da mesma forma toda o tempo e teu nariz me dizia tanto de quão além tu eras. E lembro bem fotografado, não pelos cabelos revoltos que me remetiam à sexualidade que nem mesmo tinha ainda atingido, nem mesmo pelos teus seios que me faziam sempre lembrar dois leões-de-chácara a guardar teu corpo todo.

Nem mesmo pelo ar bucólico e carregado de teus ombros, seguidos de perto pelo mistério das saboneteiras, e, sem querer decepcionar-te, também não te fixei pelas mãos pianistas, que figuram uma grande paixão de minha infância, claras, decididas, delineadas e, no entanto, totalmente intangíveis, que começavam em pulsos perfeitamente finos e subjetivos, com aquele ossinho a apontar "sou mulher" e terminavam em unhas que nunca ousarei descrever por não confiar desta forma numa capacidade poética tão falha quanto a minha.

Erras, se presumes que guardei-te, tão firmemente à memória de artista, a figura devido àqueles teus traços laterais, munidos de latente carne e emeados pelas pontas sensuais dos teus cotovelos. Não digo ainda do motivo que me faz guardar-te eternamente entre os cachos que me povoam a mente, prefiro falar, nesse momento de devaneio, da tua minuciosamente latina pele amarelo-queimado que comporta esses sinais esparsos e distintos e convidativos e distantes; sou, nesse instante, tão vontade de olhar e olhar para sempre um pedaço de tua pele.

E teu ventre... teu ventre sempre coberto que me traz à tona a maternidade futura, teu ventre oculto pela camisa me parece o lugar mais conciliador de teu corpo todo e me instiga a vontade - tão contundente - de te pedir que acolhas, na superfície dele, minha cabeça atordoada, mãe carinho paixão que resume teu ventre. O que muito me importa, não sendo, no entanto, o que me prendeu à tua imagem, é essa singeleza eminente que te cerca e que se explode toda em não-limites e que, até agora, não sei precisar se te toca ou se emana de ti.

O que tem a tua figura que, uma vez presente, me preenche inteira e me impede de não te amar toda essa tua feminilidade que nunca antes eu vira materializada? Aqui eu chego, finalmente - e muito cansada e muito satisfeita e muito embriagada de te admirar -, no que me faz nunca te esquecer e sempre tentar te retratar com tantos e diversos nomes e histórias e facetas. Não é ainda a tal feminilidade descabelada ou essa tua face invasora que vem sempre me encantar, de dor e sofrimento e bucolismo e transcendência.

É a poesia, que me chega por todos os poros e de todos os meios e que só não te usa por ser a tua aparição a perfeita materialização da poesia. Em meus livros de teoria da literatura já posso grafar, à caneta bem escura, que a poesia és tu, posto que tu és a pura e simples poesia.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Crônica de manhãzinha

Levantou e foi como sempre foi: sentiu aquele frio nos pés e hesitou em sentar novamente, ou melhor, em deitar novamente, mas manteve-se quase-firme na sua tarefa de tirar a noite toda de cima de si.

Continuou pisando no sono frio da cerâmica acinzentada do seu quarto, coragem por coragem, já alcançando o banheiro, já vitoriando o lençol jogado e os travesseiros afofados e a penumbra que dava asilo secreto às chinelas preguiçosas, já fechando a noite de seus olhos, sensíveis à claridade do lado de lá das persianas fechadas de madeira envernizada de poeira e mofo.

Toda essa concentração no próprio trajeto para não ouvir o vibrar endiabrado da ordem de levantar, tic-taqueando os minutos que já estava atrasado, exalando esse som que a ordem tem!

sábado, 30 de maio de 2009

sem titulo

Chorava todas as palavras que não podia dizer. Chorava porque as lágrimas e as contrações na garganta poderiam lavar, levar tudo o que não podia contar. Talvez o (re)fluxo de suas idéias e sentimentos controvérsios conseguissem expandir-se nas lágrimas e escrever no seu rosto o que já não conseguia escrever no som das palavras. Talvez se umedecesse as suas entradas, as suas entranhas, o grito deslizasse para fora num processo tão rápido e tão instantâneo que não fosse mais necessário o bisturi e a tesoura. Queria parir as palavras dessa gestação longa e inchada e molhada de sal.

As palavras.

As palavras que não eram desenhadas, diagramadas e escritas em sua mente tão despenteada. E chorava.

Tossia a dor de não saber expressar a dor que estava sentindo, a timidez tartarugueana de se esconder e não encontrar nunca mais a chave da porta da frente pra sair e ir ver como se faz pra conversar. E era uma atrocidade vê-lo chorar e tossir daquela forma pedindo que eu compreendesse todos os seus esforços bovinos de repetir a mesma lágrima, sem que eu conseguisse ler as palavras, porque não estavam escritas ou desenhadas. E ele chorava tudo o que não conseguia dizer e o que eu podia fazer? Era apenas um talvez, uma incerteza, um subjuntivo mal conjugado o que eu estava segurando em minhas mãos imberbes. Iverossímel estar tão atada aos soluços de alguém que não me permite visualizar o menor contato.

O que fazer?

Deixei-o.

Como se deixa um vestido que não serve mais e segui em frente, sem tentar perceber as letras, as nuances, as cores daquelas lágrimas mudas, com a sua própria linguagem inacessível, imcompatível. Deixei sua mudez húmida e coberta de folhas prenhes pela minhas palavras secas, murchas e bolorentas.

sábado, 28 de março de 2009

Caixa de costura

Quando ela me olhava daquele jeito, quase me pedindo para ser eu, quase me pedindo para ficar, em duas pontinhas de ciúme costurados com linha delicada ao seu rosto.

Quando ela simplesmente não compreendia o que eu dizia e apontava para mim os botões tantas vezes polidos e aquebrantados, tentando metamorfosear-se em pontes de intimidade.

Quando eu amei pela primeira vez alguém igual a mim e não tive medo de sempre lhe olhar os botões, mas tive medo de lhes desvelar e riscar com minhas penas afiadas .

Acontece que não podemos sempre.

Não podemos.

Às vezes apenas precisamos ser costuradas, ser seguradas, alguma peça de nós está solta, precisando um alfinete, dois botões.

Mas fomos incapazes de mostrar, de pedir, de gritar.

E ficamos. Sem. Completamente,

Um pedaço aqui, outro acolá e dois botões que não nos pedem mais para ficar.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Atalho

Pega a caneta, ou o lápis, ou o pincel, ou o carvão. Escreve em ti, nas pernas é melhor, tudo o que tu fostes, tudo o que tu és, tudo o que tu gostarias de ser. Escreve em ordem temporal, ou de importância, a critério.

Molha as mãos no álcool e as passa pelo recém escrito. Agora tens nas coxas tua vida inteira. Quando morreres, não precisarás ver o tal filme. Levas nas coxas quem tu és e quem tu sonhas ser, agora, numa coisa só.

Um Tu apenas. Sem difusões, sem sonhos inalcançados. Já alcançaste tua meta. És agora ser realizado.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Turista

Acredito que isso pode acontecer com qualquer um, quero dizer, eu seria um pouco louca se fosse a única. Quando aquele professor começava a falar, meu pensamento pegava carona na cauda do cometa do Balão Mágico e ia viajar por aí. Às vezes, penso que tenho o tal do DDA que passou no Fantástico. Eu não entendi direito o que era, mas parece que era falta de atenção... não sei. Não estou sendo hipocondríaca, como podem pensar. Às vezes, eu sou, mas não estou sendo dessa vez.

Não acontece só com o professor. Se alguém estiver falando comigo a mesma coisa, sem parar, eu me perco. Antes da metade do caminho eu “não estou mais nem aqui”. Talvez seja apenas falta de respeito, então eu tento me corrigir, pedindo que a pessoa repita tudo outra vez, mas isso nem sempre é bem recebido, na verdade, nunca é. Algumas das pessoas merecem explicação, outras nem tanto e não me dou ao trabalho.

Eu estou no mundo meio a passeio, entende? Não que não faça nada e não me interesse por nada, longe disso. Eu estou no mundo para observar e registrar, como fazem os turistas. Até tento manter a concentração por algum tempo em alguém que está mexendo boca e soltando algumas palavras quaisquer, mas começo a reparar que um de seus dentes é mais saltado que os outros e que, talvez, um desses “aparelhos de estrelinha” resolvessem o problema; meu irmão já usou esse tipo de aparelho só nos dentes de cima e, se não me falha a memória, já vi alguém com as tais estrelinhas em apenas dois dentes... como será que eu ficaria de aparelho nos dentes? Já usei uma vez, mas não foi “de estrelinha”.

É difícil não reparar, mais difícil ainda não pensar no que já fiz durante o dia ou no que eu ainda tenho que fazer. As palavras não me prendem muito se faladas, essa é a verdade. Nem as pessoas. Eu estava vendo umas fotos e percebi que em 50% delas eu estou flanando, não estou lá; das outras, 50% eu estou comendo e 50% estou fazendo caretas. Isso pode ser um problema, às vezes.

Já pensou se eu estou com meu marido, se um dia acontecer de eu casar, na lua-de-mel, nossa primeira noite de casados, tudo muito bem, tudo muito bom, ele comenta algo e eu nem “tchum”? Já consigo até imaginar. Que loucura. Se ele for igual a mim, não vai ser um problema. Com certeza começaremos no amor e terminaremos em alguma questão existencial do tipo: as formigas pulam ou não?

Pelo menos eu não estaria sozinha. Aliás, eu não estou sozinha, graças a Deus. Tem sempre aquela amiga, ou amigo, né. Não poderia ser diferente. Falamos 10 assuntos ao mesmo tempo e terminamos falando em pizza. Claro que ninguém consegue entender nossos diálogos, mas não tem importância. Acho que ela pegou “DDA” por osmose, e eu herdei da minha mãe. Imagine a seguinte situação:

Você, sentado, assistindo Pica-Pau e sua mãe aparece com a seguinte frase: “Tem gente que não tem savoir faire mesmo né. Assim, tem gente que parece que não percebe que...”, e ela vai falando e você fica meia hora para tentar entender do que é que ela está falando, até que descobre que ela vai começar a falar da vizinha que jogou a água da piscina na rua. Você, que é um bom filho, comenta por alto, até porque ainda está tentando assistir ao desenho animado. E ela, que é uma boa mãe, solta o seguinte: “Mas eu acho que o remédio não me fez bem.”

Entendeu? O que é que o remédio tem a ver com a água da piscina e porque toda aquela introdução quase filosófica? Essa é a minha mãe. Ela também é turista. Registra tudo, mas na hora de expressar se embanana toda. Bem, filha de turista, a passeio está.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Carta.

Jericoacoara, 15 de janeiro de 1987.

Oi,

Não conheço você, talvez nunca venha a conhecer e, mais provavelmente, você nem exista. Com certeza, alguma correnteza ou onda mais forte levará essa mensagem para o esquecimento e eu nunca obterei resposta, não a almejo, entretanto.

Escrevo porque choveu esta manhã e o cinza que cobriu a praia não era morto, não era vietnamita, nem ditador. Fez-me lembrar dos sonhos que tive e que me alimentaram.

Não tinha bicicleta e não pude andar na chuva pedalando e de braços abertos, como sempre tive vontade de fazer, talvez eu morra sem realizar esse gosto.

Devem estar nascendo crianças hoje, pontinhas de lápis que vão escrever vontades e desejos nas areias das praias cinzentas como esta que está olhando para mim. Vão pisar fundo e afundar os pés na areia molhada, sem medo dos caranguejos e siris. Vão correr gritantes de tão gelada vai estar a água da onda que veio de surpresa. Crianças.

Gosto tanto de crianças que nunca terei filhos. Acho que não saberia ser pai, talvez, tirasse delas, logo de início, esse pudor e esse medo paternos que as protege.

Está chovendo outra vez. As gotas caem do telhado formando diversas cachoeiras de brinquedo e algumas crianças brincam em baixo delas, fazendo algazarra.

Fico feliz ao imenso, se essa expressão existir, de ver que as crianças brincam nas biqueiras dos telhados, porque a água é gostosa e clara. Minha cadela não tem vontade de sair para brincar com as crianças, acho que é o frio. Normalmente ela faz festa no meio da rua.

Talvez eu já esteja velho com todos esses meus 20 anos. Ainda não vi, nem cheirei, nem dancei, nem verbo nenhum tudo o que poderia. Mas ainda terei oportunidades, um centenário de felicidades carrego nas costas: por isso ando curvado.

A primeira vez que concretizo em atos o que sempre imaginava. Peço perdão pela garrafa de aguardente, não estou em Viena, nem no Porto, e a única garrafa de vidro com tampo de cortiça que me foi disposta continha aguardente, que joguei toda na areia.

Formou uma piscina. E grãos de cristais de areia nadam como se fosse um dia de sol e verão.

Ainda chove.
A.C.

Obs.: Um último e infantil fio de esperança me impele a escrever o endereço no verso da página.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Da varanda

Lá estava. Na verdade, nunca estava em lugar nenhum, mas flanava por todos os cômodos. Era tudo seu. Nem morava lá e era tudo seu, mesmo o que não estava ao alcance dos seus olhos curiosos, dos seus redondos olhos de boneca curiosa. Ah! se tivesse o dom. Escreveria linhas, páginas, livros. Tudo porque já via como era do outro lado também. Era tudo igual, tudo a mesma coisa, em todos os lugares. Tudo seu. Queria poder fazer arte com tudo aquilo de que se apossara com os olhos curiosos. Mas não era artista, não sabia ser. Não queria ser, queria sim. Então apenas flanava. Flanava sem saber o que era exatamente flanar. Ouvira alguém muito inteligente e culto usar essa palavra e apossou-se dela também. Gostava de se apossar das coisas e lhes dar novo significado, mesmo que não mudasse.

Começava a se sentir vazia. Entende? Acho que ninguém entende se não explicar. Porque não era vazia como todo mundo acha que é. Era o "vazia" dela. Aquele que enche e clareia e deixa tudo como um aquário sem água, com peixes flutuando, feito ela. Ela estava se sentindo vazia e podia flutuar dentro de si. Via os diversos mundos em cada uma daquelas janelas das quais se apossava sem nenhum pudor. E se alguém a visse bisbilhotando? Que importa! Não era bisbilhotice. Ela não era um deles; aqueles desocupados que bisbilhotavam e julgavam. Ela não julgava; na verdade, nem estava lá. Na verdade, nem se importava com as pessoas que a olhavam enquanto ela as observava em seus mundos paralelos. Era ela, dela, nela. Sempre. Esse tipo de egoísmo que ninguém entende, ou entende, não sei. Até mesmo ela, que sente, não sabe bem como explicar. Se ela tivesse o dom da palavra: escreveria.

Vontades, vontades. Eram tantas que já não havia mais nenhuma e só ficava com a cabeça encostada enquanto observava os mundos paralelos. Nem estava mais na própria órbita, flutuava dentro de si de mundo em mundo, bem longe. Mas era tudo dela. Até o que não era. E o que era, ela esquecia. Fechava os olhos e ouvia a música. Ou não. Acho mesmo que não ouvia a música, apesar dos parcos comentários. Na verdade, por causa dos parcos comentários. Pode-se flutuar num aquário cheio de música e mundos paralelos que o invadem pela janela? Pois flutuava, mesmo sem poder; se é que não pode.

Muito fácil sair de si. Muito fácil criar os Outros dentro do seu próprio inconsciente. Tão criativa, tão tão. Sensível. Mas não tinha o dom. Nenhum dom. Apenas o de olhar olhar olhar olhar. De se perder nesse pequeno nada que há entre o olhar e o olhado. Era seu egoísmo todo particular, todo nunca-egoísta. Falava para si. Olhava para si e sempre preferia continuar e flanar, mesmo sem saber o que seria isso. Quase se via. As varandas que agora a recepcionavam eram quase espelhos do seu mundo interior. A música acabou. O mundo, não.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Cinco e quinze da tarde.

Cinco e quinze da tarde, por aí assim, já vinham os latidos tão pontuais; era só esperar um pouco, olhando sempre para a esquina com a Y; aquela ali da igreja evangélica; aquela rua com nome de gente que ninguém nunca lembrava qual que era. Não custava muito. Também não era das melhores ocupações, mas, a essa hora, havia o futebol na rua da frente e o carimba logo pertinho das meninas que nunca decidiam do que brincar e só faziam algazarra. Cinco e quinze era aquela hora nem quente nem fria, nem clara nem escura, que trazia os pernilongos para dentro das casas, desavisadas, de janelas abertas. Aquele momento que expulsava as senhoras tricotadeiras – tricotando toalhinhas e informações – de dentro de suas casas. O momento que não existia sem a gritaria nas ruas em “T”: a X e a W.

Sabe aquela hora que, sem combinar, todos os sons mais de bairro se juntam na rua pra esperar a hora de entrar? Era a Cinco-e-quinze-da-tarde. Hora boa. Hora dos latidos vindos da Y, quase dobrando à esquina da igreja evangélica e furando a X com focinhos nervosos em cabeças grudadas a corpos levados por patas frenéticas. Tudo contido por coleiras e correias coloridas. Eram 6 coleiras coloridas e todos já reconheciam os cachorros pela cor da sua coleira. E todos levavam a própria diversão adiante já esperando que, da esquina, explodissem cães, no ápice do crescendo de uma música.

Aqueles adolescentes já metidos a adultos ajuntavam-se naquela calçada da casa-mansão, riam-se e conversavam; também já esperavam pela hora dos cachorros, que não tardava: cinco e quinze já e os latidos animados vinham perto. Até o sol, que a essa altura já ia cansado pelas beiras do dia, meio caindo para o lado, com os raios dobrados, quase se recolhendo. Mesmo ele aguardava a aparição dos rabinhos loucos, abanando o ar. E aquela lua crescente que, desde as 3 da tarde, vinha espiando o lugar, escondidinha, camuflada sem êxito, ia descamuflando ali pela outra beira do dia, já vanguardeando a noite que preguiçava em chegar; também olhava, displicente, a esquina da igreja evangélica e esquecia de escurecer o dia.

Vez ou outra, um carro passava bem no meio da Cinco e quinze da tarde, só para quebrar o mau-costume de já esperar os cachorros; passava querendo ser rápido, sem conseguir, e buzinando, sem assustar. As velhinhas continuavam seu tricô, tecendo longas toalhas sobre o movimento da rua e sobre a filha mais nova do Seu Agenor da Dona Josefa, que, coitada, foi enganada pelo namorado e agora estava grávida e sozinha. Enganada nada! De vez em quando, uma mais espevitada soltava agulhadas na honra da moça inocente que se entregou ao amor. Tadinha dela! Outra já vinha em defesa, e a toalha ia longe. Só era preciso um descuido no ponto e o tricô saía desandado a falações não-cristãs. Aquele rapazote que chutava pro gol, agora. Todas olhavam e falavam. Era um menino tãobom-tãobom, mas começou a sair com o neto da Dona Maninha viúva do Brigadeiro Alonso, que ela não saiba (!), mas era uma péssima companhia. Agora, então, que já era de maior... ih! O tricô já dava pra cobrir uma mesa de 12 lugares, tocando o chão.

Gol, às vezes saía, mas não tão pontual e certeiro assim; mais fácil bolada do carimba, ou escapadela de uma e outra bola forte, lá pra cima das meninas-que-nada-faziam. Zup! Ai! Presta atenção, tem gente aqui! Eita que a briga estava armada, mas aqueles lá, às vezes meninos e meninas, da bola nem ligavam p´ras frescuras das meninas, daquelas que não sabiam o que fazer. E a bola ia girar, voar, bater, quicar, cair. Até a chegada dos cachorros e depois. Nem durava muito, os latidos já tão próximos e Cinco e quinze da tarde já estava passando. Lá vinham os cachorros, dobrando a esquina e já entrando na X. E uma babá de cachorros sendo levada para passear. Mas aí, já eram cinco e dezesseis da tarde e, parece, que a lua já estava satisfeita e o sol já pensava em se retirar mesmo, de cansado. Não tardava tanto e era já hora de entrar. Tomar banho. Sair outra vez. E esperar a hora de dormir.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Domingo.

(Antes do texto, algumas palavras. Hoje faz 1 mês que meu avô faleceu, por este motivo, estou interrompendo a postagem de Valente, pois julgo mais importante prestar-lhe uma homenagem. Esse texto será lido na sua missa, logo mais tarde.)


O cheiro do fumo precedia qualquer apresentação. O cheiro do fumo cortado e queimado. Ele sempre comprava em rolo e passava a tarde cortando para guardar em uma latinha e depois fumar, sossegado. Meu avô era um homem sossegado, e vivido. Vívido e vivido. Era um homem cheio de vida em sua velhice tranqüila e afazeres idosos.

Tantas histórias ele viveu, tantas ele contou. Nem ouso dizer das que ele criou para satisfazer a curiosidade dos que escutavam. Eu mesma escutava todas, às vezes, não entendia as palavras, mas sempre terminava rindo, de forma ou de outra. Talvez pela espirituosidade de quem contava, talvez por entender o final, talvez por saber que aquela comparação – ele sempre tinha uma comparação - tinha um completo fundamento.

O fumo, o café, a rapadura e o pão de milho. Tudo tinha um cheiro e um gosto que lembrava avô. Lembrava o vô Pedro. E, claro, lembrava paciência. Muita paciência: tantos filhos, uma esposa e uma dura vida. Ainda escuto minha mãe contando as tantas e outras histórias de sua infância; e ela sente uma saudade que não dói, que é bonita.

Era o nosso amuleto, disse meu tio. De fato, ele o era, nosso amuleto, que nos unia aos domingos para vê-lo assistir a televisão, quase sem som, sentado na velha poltrona. Antes uma cadeira de balanço tradicional, depois uma bela poltrona azul porque meu avô merecia por os pés para cima, mas não o fazia. Era quadro pintado. Ele estava sempre lá, sentado em sua poltrona, assistindo sua televisão; minha vó ao lado, na rede, se balançando a notar o movimento na rua.

Hoje, o quadro está desfalcado. A televisão está lá, mas o som está mais alto. A poltrona, no mesmo lugar, mas antes me sentar nela a vê-la tão vazia assim. Vazia e com a marca do peso de quem antes a ocupava. O cheiro do fumo, agora distante, não precede mais a brincadeira. Agora precede o silêncio. E ficamos nós sentados na varandinha do quintal, olhando para onde estaria o Pedro. E ele estaria observando, pronto para alguma piada. Ele sempre me chamava para algum comentário porque sabia do meu riso frouxo.

Véi Pedim foi com Jesus, ou melhor, foi esperar por Jesus. Foi preparar as piadas para receber Jesus quando este voltasse da sua visita anual à terra, na Páscoa. Foi, talvez, fazer um pão de milho e um café quentinho – e forte –, rapar umas rapaduras. Entre uma e outra lágrima, os filhos, nós netos, a esposa e tantos amigos nos lembramos dos momentos bons e dos menos bons, que foram, e graças a Deus, ficaram. O cheiro do fumo, já tão apagado, ainda me faz ter a impressão de que ele foi ali, no quintal, e já volta; no seu passo pequeno, sua visão curta, e sua camisa sem mangas.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

*sem título*

É estranho não saber o que se sente quando tudo acaba. Tudo acabou e eu continuo seguindo, seguindo, sem acabar. Na realidade, o estranho é já se ter dado o assunto por encerrado e só agora ele parece que, de fato, chegou a seu termo final. Será isso possível ou a sociedade que me habita se perdeu na Terra do Contrário, um País de grandes maravilhas maravilhosas que minha parte menos viajante não consegue compreender? Alice? Alice, onde você se meteu, menina? Espere por mim! Oh, será que foi por aqui? Mas a porta é tão pequeeeeeeeeeeeeeeeee...eeeeeeena......

Eu escorregou em algum lugar por esse Lugar-louco. Depois o procuro, ainda estou tentando compreender tudo o que me explicam minhas personalidades outras, que não saíram endiabradas em busca de uma garota louca que disse ter visto um coelho branco falante! Ora, venhamos, onde essa garota pensa que está? Em uma fábula? Eu já tenho tantas rainhas de copas gritando pela minha cabeça, para ainda ter que procurar uma menina desobediente e uma personalidade desgarrada. Não me farão falta, garanto. As personalidades já me são tantas que, às vezes, penso ter que tomar medidas quanto ao controle de natalidade! Talvez uns preservativos.

As coisas, sons, movimentos, luzes e créditos, giram ao meu redor: um mostruário psicodélico e extasiante de tudo o que me acontece, tudo o que me pesa, tudo o que me cansa, tudo o que me cobra, tudo que tudo de tudo. Tudo? Voltas e voltas e tudo, tudo. Essa palavra existe? Existe e se aglomera na minha nuca, empurrando-a.. Para onde? Não acredito que ela esteja no lugar errado. Já tem tanto deslocado. Talvez só queira chegar aos pés da maneira mais confusa. “Tudo” e “fim” povoam as idéias das minhas idéias. Enfim um ciclo se fecha? Outro e outro que por tantos séculos vou inaugurando e falindo.

Não sou um ciclo. Sou uma vida em espiral, ou uma mola, algo que nunca sai do lugar. Entretanto uma mola sai do lugar. E que vida sou eu então, eu e meus eus, os eus dos meus eus que me povoam e seus filhos e gerações de confusões? Essa de cabelos vermelhos ainda não foge de mim. Continua dormindo aí, de olhos abertos, pintados, como uma boneca. Tenho um rosto desenhado. Tenho modos desenhados. Perguntas e respostas desenhadas. Alice, o coelho foi por ali. Se encontrar Eu, diga que a reunião da Assembléia já vai começar: precisamos decidir sobre controle de natalidade, ciclos, molas e espirais.

Fim. Confuso? Habite-me.

terça-feira, 6 de março de 2007

Odalice

“Bom dia!”, disse o passarinho, quando passou em seu gracioso vôo matinal, com sua voz entoada em notas harmônicas. “Está mesmo um belo dia!”, respondeu a linda boneca de cabelos vermelhos, em seu vestido bordado. Ela estava tão bela quanto aquela manhã ensolarada de primavera. “Olá, linda Odalice! Como está bonita!”, todos comentavam. A boneca de pano se sentia feliz e viva, como não se sentira jamais. Tinha vontade de cantar; cantava. Eram músicas alegres e sua voz tão doce convidou o pássaro a cantar junto. Era um dueto bonito de se ouvir. As flores, todas invejosas da beleza de Odalice, esqueciam e ficavam a se deliciar com a cantoria. Os outros pássaros paravam de cantar em respeito e admiração. A boneca sorria seu sorriso pintado e suas tranças de lã vermelha desmanchavam-se com os pulos e piruetas que dava.

Não era essa a história que eu ia contar. Não ia falar de um dia bonito, de uma boneca bonita, de um jardim bonito ou de flores invejosas. Eu tinha outras tantas e mais idéias de histórias para contar, histórias interessantes e envolventes. Entretanto, quando me sentei ao lado da Odalice, minha boneca de pano, na minha cama, para começar a escrever, eu me perguntei como seria ser uma boneca de pano. Passar os dias sentada, comportadamente, na minha cama, esperando que a noite chegasse para que pudesse deitar ao meu lado e dormir de olhos abertos. Fiquei observando-a por algum tempo e reparei que seus olhos foram pintados direcionados para a esquerda. O que haveria de tão interessante à esquerda de Odalice? Ironicamente, a sua esquerda há uma janela grande de madeira que passa o dia aberta. Minha boneca passa seus dias sonhando em passar por aquela janela e conhecer o mundo lá fora. Ir cantar com os pássaros e sujar seu lindo vestidinho laranja na areia. Sorrir de verdade. Sorrir seu sorriso pintado.

Pensei ainda se ela gostaria mesmo de estar olhando para a esquerda. Se ela gostaria mesmo de estar sorrindo todos os dias e as noites. Se ela não preferiria uma calça jeans e uma camiseta de malha àquele vestidinho bordado, um par de tênis e um rabo de cavalo. Quem sabe cabelos castanhos e curtos e uma tatuagem no pescoço. Brincos, talvez. Ou nada disso. Quem sabe ela nem se importasse com a aparência ou com a janela ou com o seu sorriso constante. Quem sabe ela já estivesse acostumada a viver da forma que a moldaram. Ela foi feita sob encomenda. Quem sabe ela já não estivesse acostumada, acomodada, a viver da forma que a encomendaram que vivesse.

Começo a ter pena de Odalice. Começo a me sentir culpada por impor a minha boneca um cabelo vermelho, um vestido laranja, um chapéu de pano, um sorriso pintado e um olhar à janela. Começo a me sentir culpada por ainda impor a minha Odalice a qualidade de minha propriedade. Começo a me questionar se eu não estaria impondo mesmo as dúvidas à Odalice, sobre o que gosta e o que não gosta. Entretanto ela permanece sem me olhar – ela apenas admira a janela. Ela permanece sorrindo e parece bem assim. Parece bem. Talvez nem seja tão ruim ser uma boneca de sorriso pintado.

domingo, 4 de março de 2007

“Pseudoliterariedade de um falso intelectualismo”

Começa assim: você está passeando alegremente pelo Centro – bairro comercial da cidade (de toda cidade) – e aí se depara com um sebo que nunca tinha visto por ali. Então você pensa “Eita, um sebo novo? Nunca tinha visto ele por aqui...”. Exatamente, é assim que você pensa. Não com essas palavras, mas vai me dizer que você pensa “Ah! Um novo estabelecimento plebeu para a venda, à preços módicos, de publicações outrora modernas de obras, com páginas rotas e desgastadas com a ação implacável do tempo, que ficarão para sempre na memória da Literatura, acaba de ser inaugurado por mais um burguês!” Ah, tem dó, você se perde na metade da frase e nem sabe mais sobre o que estava pensando.

Você resolve entrar no tal sebo, dar uma olhadela de soslaio para os livros e para seus preços – você precisa saber se são tão módicos assim, ou se é mais um picareta que não sabe sequer quem é o tal Tolstói que ele vende tanto. Então você encontra um livro desconhecido. Um autor completamente novo para você – e repara também que mesmo a edição não é tão velha assim. Não contém a curiosidade e se deixa sentar sobre o chão coberto de poeira – qual seria a sua cor original? – para, da forma mais cômoda possível, desvirtuar esse novo escritor que surgira do nada. Então você abre na contra capa – porque o título estava completamente ilegível na capa, com aquelas letras imitando um líquido qualquer escorrendo – e lê o título. Não sabe bem que reação expressar.

O título é algo confuso demais, com palavras estranhas – de certo retiradas de algum dicionário do português arcaico -, mas, afinal de contas, você é um aficionado – e está sentindo-se mais um ‘afixionado’ - um intelectual! Como pode não compreender um título tão simples? Então você percebe que o tal burguês está espiando você, discretamente – ou pelo menos o tal acredita que sim. Você esboça uma expressão de total compreensão do que está lendo e ainda arrisca um risinho pretensioso, como se já soubesse, por alto, do que trataria a história.

Você ainda se demora um pouco no título, como se estivesse se deliciando completamente com a expectativa da história que estaria por vir. Então passa as páginas tranqüilamente. Passa pelo prefácio e nem se atreve a começar a ler. As informações sobre o autor passam totalmente despercebidas por seus olhos tão perspicazes, sequer nota se elas vêm antes ou após o prefácio. Claro, não posso deixar de mencionar a sua expressão. A essa altura você esboça aquela expressão intelectualóide que todo universitário da área de humanas ostenta – e a maioria sequer leu Machado em toda a vida. É aquela expressão que você já conhece bem e com a qual já está bastante familiarizado de tanto ensaiá-la em suas conversas com os menos interessados na arte da leitura.

Você endireita os óculos – que você talvez nem precise usar tanto assim ou poderia estar usando lentes de contato, mas os óculos, a armação pesada ou a falta dela, emprestam a você um aspecto mais respeitável de pessoa culta e estudiosa. Independente do estilo de vestimenta que você ostenta, sempre irá parecer que você o faz por ser alguém de muita leitura e muitos conhecimentos. Os óculos finalizam o quadro. Talvez umas olheiras leves fossem até muito bem-vindas, pelas noites que você supostamente passa lendo, mas nada é perfeito; o charme dos óculos já se mostra respeitável. A expressão de total compreensão, ou mesmo um ar de filosofagem, ganha representatividade e autenticidade.

Você lê o primeiro parágrafo do primeiro capítulo. Você o lê outra e outra vez. Muitas combinações de palavras estranhas. Palavras bonitas. Você sorri heróico: compreendeu o primeiro parágrafo. Na verdade você excluiu o que você não captou e interligou os pontos que não deveriam ser interligados. Pronto, decidiu: vai comprar o livro. Na saída comenta com o vendedor burguês: “Gostei da maneira perfunctória com a qual esse leitor escreve indo de encontro ao nazi-nipo-fascismo esperado.”. O burguês concorda com um sorriso amarelo e você sai do estabelecimento plebeu com o espírito renovado. O escritor é mesmo muito bom.


(aceito idéias de título XD~~)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

36 meses e algo mais.

Pra ser sincera não-lembro, mas sinto a saudade de quem gostou e não quer mais. Aquele lugar, aquelas pessoinhas correndo pelo corredor e descendo as escadas sob os protestos dos pais amedrontados. Uma, duas, três quedas. Alguns ferimentos. Tantos castigos quanto são os dias da semana. Choro esganiçado. Algum carinho, e muitos beijinhos. Todas as crianças têm memória curta e amor longo. Amor de ida e muita volta. Que o digam as noites de pesadelo; de gripe e tosse; de xixi na cama. Honestamente, não-lembro mesmo, eu não fazia xixi na cama, nem chorava à noite acordando a todos. Não-lembro e era bem assim.

Não-lembro tão bem do susto. Aquele susto. Não-lembro cada vez que olho minha mão. Da preocupação dos meus pais. Da babá. Dos parentes. Dos amigos. Não-lembro também da recuperação. Da retirada dos pontos. Essa lembrança é bem viva na minha não-memória.

As visitas! Como não-me-lembro bem das visitas! Visitas aos vizinhos. Às portas fechadas que escondiam brinquedos alheios e filmes que passavam ao mesmo tempo em todos os lugares. Sim, eu fiz parte dessa brincadeira. Era muito novinha; eu não-lembro. Foi bom! Foi muito bom correr pelo corredor – ótimo nome, quando se trata de crianças – e cair. Cair muito! E chorar. Porque cair dói. Eu não-lembro muito bem: caía muito. Juntava toda a turma e, juntos, caíamos. Claro, caíamos porque corríamos.

Não-lembro, mas brinquei de boneca. Muito. As minhas bonecas – de cabelos cortados e assanhados – se juntavam às bonecas das outras. Tomavam chazinho e conversavam conversas-de-comadre, enquanto fazíamos a bagunça que tiraria minha mãe dos eixos, quando esta chegasse cansada do trabalho. Não-lembro perfeitamente da minha boneca favorita – de pano e simples, não era Barbie nem Susi – e do seu esposo – um ursinho encardido. Antes de dormir eu dizia boa noite e os cobria no meu lençol. Claro que eu não-lembro disso! Como poderia ser diferente?

Não-lembro que dava banho na minha Meu Bebê. A papinha. Saía com ela para passear – pelo corredor, no primeiro andar, louca para ir até o salão no térreo, onde minha mãe estava cuidando dos cabelos. Não-lembro também: eu me escondia atrás do sofá, com meu irmão, quando a babá dizia que era a hora do banho. Ria muito, baixinho, observando ela me procurar. Chorava muito, alto (!), quando ela me encontrava.

Do meu irmão eu lembro. Minha memória é fotográfica – e está toda guardada na mala preta e nos porta-retratos espalhados pela casa. Ele era carinhoso comigo e me dava beijinhos – o que fez isso mudar? Brincava comigo – ou me chamava pra brincar com ele e com os amigos dele? Não-lembro dos amigos dele. Tinha aquele loirinho. Aquele de quem eu me lembro pela memória da minha mãe. Aquele que brincava – brigava – com meu irmão. Como estará ele hoje?

É nostálgico, sobretudo, não-lembrar dos olhinhos. Dos quatro olhinhos. Dos quatro olhinhos brilhantes. Do terreno vazio, na Messejana, que fitavam. O terreno que eu só vi depois. Tão felizes; esperançosos; futurísticos; apaixonados. Ainda hoje o são. Não-lembro tão bem de tudo isso. Se sou quem sou hoje meu café da manhã foi assim, ou melhor.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Veneza, 28 de novembro de 2059

Querido Diário,

Acho que tenho sido irregular com você. Na verdade, tenho sido fria e omissiva. Passo séculos sem escrever e sempre volto com a mesma desculpa. A verdade, quase sempre, reside na preguiça e na falta de inspiração. Poucas vezes o cansaço ou a vergonha me impelem a te guardar sem uma letra escrita. Ultimamente tenho escrito pouco. Versos, frases, ficção ou realidade. A ponta da minha caneta quase secou, morta e sem utilidade.

Gastei mais tempo sentindo do que idealizando; vivendo do que desejando. E descobri que os meus desejos vão se realizando sem eu perceber. Sem eu aproveitar. Encantei, sim, um lindo homem. E com toda minha utopia doente, eu o afastei. Utopias devem se limitar à ponta da caneta, bem segura pela ponta dos dedos, para não escapar e escrever desenfreadamente, ainda mais do que já escreve. Nunca devem chegar à ponta língua, antes, se disseminando por todo o corpo.

Minha realidade é oposta à criação de minha caneta. É cotidiana, é sorridente, é mascarada e é solitária. É mentirosa, é doce, é meiga e é agradável. Vilã. Bondosa. Minha realidade é o conflito contínuo do que quero ser e do que consigo ser. Conflito contínuo do que sou e do que minha caneta me escreve. É típica. Nada, nada utópica. É boa. É livro, é aula, é riso, é fuga, é praia. Amigos, amigos, amigos. Minha realidade é amigos. Beijos raros. Abraços amontoados em cima dos meus horizontes. Piadas. Cerveja. Um refri e um salgado lá no Bené. Desconhecidos amigos. Minha realidade é uma Teoria de Bosque sem árvores. Pés de manga. Pés de amigos.

Todo mundo precisa de um mundo. Eu não sou todo mundo, sou um mundo sem mundo. Sou perdida no espaço. Pouso de mundo em mundo. E tenho abrigo no mundo dos outros, dos outros amigos dos outros. Amigos que são colegas e conhecidos, sublimes desconhecidos; eu os tenho aos montes. Dou-me completa. Obra completa. Parla! E parlo. Não me entrego jamais, nessa guerra sou a minha única derrota, minha única vitória. Namorado é complicado, muito. Minha realidade é amigos. Amigo é corriqueiro. Fala-se besteira, escolhe-se um ou dois. Confia-se. Amigo tem outros amigos e não é traição.

Namorado tem repercussão intergalaxical. Vem cada medo bobo, receio besta. A vida é tão curta e a minha passa tão rápido, pouco proveito. Beijos raros. Toques extintos. Ainda espero por mim. Essa não é a realidade que conta a ponta da minha caneta. É a minha. Tantos amigos. Poucas amizades. Tanto e tão pouco. Barba e cabelo. Deixa o bigode aí. Casa e comida. Deixa a roupa contiuar suja. Não tenho estrela.

E não parei tão cedo. Nem parei. Empunhei a caneta pra dizer que sou feliz assim. Sou triste e vivo feliz. Minha realidade é boa. Não é tesuda. É boa. Namorado é complicado. Tem que confiar. Confiar. Isso quase nunca dá certo. Desconfiar. Isso quase sempre dá errado. Entre o certo e o errado eu prefiro os amigos. Fico com os amigos. Pronto. Dou-me completa. Tenho muitos amigos. Poucas amizades. Dou-me vencida, vencedora.

Agnes.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Cismei que sou escritora

Parte 1 – Entre cismas e desejos

Sou, sempre fui e, temo, sempre serei uma mula empacada, com o perdão pela expressão, que só se move à força, aos trancos e barrancos. Em outras palavras: geniosa. Ou ainda, cabeça-dura. Se cismar com algo, ninguém é capaz de me tirar dessa cisma. Desisto dela, sempre, por outra igualmente complicada e igualmente simples. Para evitar a confusão, eu explico: em geral, cismo com coisas simples, mas sempre as complico seqüenciando uma frustração. Contudo, desisto apenas depois de experiências que me provem minha não-aptidão para realizar o objeto da cisma. Entretanto, ela fica lá, ou aqui, escondida entre tantas que estão por vir e outras tantas que não se foram.

De fato, elas nunca me deixam por completo; ou eu nunca as deixo irem embora. Elas mudam de significado e importância, não deixando de existir. Por vezes, cismo em não cismar, ou em nada fazer. Outras tantas vezes, cismo que já cismei demais e pretendo, agora, apenas aproveitar o que já foi cismado outros tempos. Gozar de passatempos que já me tomaram preciosos, porém substituíveis, neurônios, uma vez que, quando cismo em realizar algum feito, não percebo nada mais importante do que isso ao meu redor. As cismas, enfim, se tornam simples desejos, atividades de lazer, para quando estiver com tempo ocioso.

Esses desejos se acumulam no decorrer da vida. Cada cisma esquecida se torna uma atividade de lazer, um hobbie, dando lugar a uma outra. Esta me toma o tempo que aquela tomava; até que me saceie, ou frustre, e assuma sua posição de hobbie, também. É um círculo vicioso, ou, em termos mais elitizados, um ciclo. Tentando não ser redundante, o que quero dizer é que uma cisma nunca é uma cisma para todo o sempre, porém, nunca deixa de existir. Ela tem sua vida paralela a minha: enquanto estiver em seu ápice, eu sugarei dela todo o conteúdo que me for útil, ou tudo que ela tiver a me ofertar enquanto me inspirar forte desejo. Passada a fase de profundo interesse, eu a procuro apenas para preencher lacunas em meu tempo ocioso, o que eu chamo de “Ócio criativo”.

Sempre acreditei em exemplos, então, nada me custa exemplificar: a dança já foi uma cisma para mim, quando foi novidade. Cismei que queria aprender a dançar e, para tanto, assistia a filmes e filmes, escutava músicas e músicas e dançava estranhamente por horas sem parar. Até que cansei de tentar fazer algo que não conseguia. Porém, ainda gosto de dançar; danço quando me dá vontade, quando estou com minhas amigas, quando toca alguma música, mas não dispendo mais tempo tentando aprender a dançar; já descobri que não tenho aptidão para isso. Talvez eu tenha desistido sem tentar, mas apareceram novos horizontes e novas coisas para fazer. Eu me encantei por essas novidades e cismei em buscá-las e aproveitá-las.

Nem todas as cismas são saudáveis. Nem todas me fazem bem, como a dança. Nem todas se tornam desejos; em outras palavras, nem todas deixam de ser cismas. Cismar em desistir. Esta sempre esteve comigo, ou em mim. Talvez eu tenha cismado em não deixar de cismar com isso. Em contraponto, como um paradoxo pessoal, cismo em não desistir; o que caracteriza a cisma em si, de certa forma; o que me caracteriza como uma mula empacada. Encontramos agora um ponto a ser esclarecido, inclusive a mim (alguém se manifesta!?): essas últimas cismas citadas se confundem com desejos, ou hobbies. Elas se manifestam em diferentes intensidades, podendo assim caracterizar cismas periódicas, ou desejos periódicos, em um movimento, acredito, sazonal. Ou não. Divago muito. Divaguei muito?

Parte 2 – Enrolar para chegar à lugar nenhum

Passar a tarde deitada na minha cama me faz pensar em quantas coisas podem estar acontecendo, no mundo todo, no exato instante em que me deixo deitar sobre as molas do meu colchão. Meu pensamento vai longe e passa por cada país desse vasto mundão – na verdade se limita aos países que minha memória conhece –, por cada pessoa e por cada mania – por cada cisma – que se pode encontrar com uma memória não muito boa e uma criatividade que me causa dores de cabeça e supre as necessidades da memória.

Aproveito assim algumas de minhas tardes – quando não me deixo vencer pelo sono bom da cesta – apenas conjeturando sobre os afazeres de outras pessoas, já que, eu, estou totalmente ociosa. Algumas vezes me pego idealizando sonhos e desejos. Às vezes penso que uma de minhas cismas mais engraçadas – para mim, é claro – é essa de ficar sem fazer nada, imaginando o que eu poderia estar fazendo se fosse outra pessoa. Na maioria das vezes eu acabo dormindo e não penso em mais nada, talvez eu sonhe, mas não lembro quando acordo. Acordo com muita dor de cabeça.

As baratas – que são seres de outro planeta – sobem na minha cama e fazem uma lavagem cerebral em mim, para que eu faça de conta que elas não existem e não vá atrás delas com Baigon para exterminá-las. Como eu sei? Isso explicaria as dores de cabeça. Em geral, as pessoas dormem e acordam sem dor de cabeça. Eu durmo sem dor de cabeça e acordo com ela doendo. Ou durmo com dor de cabeça e acordo sem cabeça! Não! Não sem cabeça, apenas... ah, deixa isso para lá.

Na verdade eu estava falando de outra coisa. Não que eu lembre do que era, mas era de outra coisa. No final das contas, nunca falo o que eu me dispus a falar - e nunca faço o que me dispus a fazer, talvez por isso me confunda toda. Ou até falo, mas enrolo tanto antes que perde o sentido. Ou até preserva, mas passei por palavras desnecessárias. Ou até necessárias, mas não muito. Depende do ponto de vista, meu professor dizia referencial. Depende do referencial. Do que eu estava falando?

Parte 3 - Enfim, as letras.

Do alto dos meus dezoito anos, quase dezenove, cismei com tantas e inúmeras coisas, que minha imaginação não poderia enumerar. Muitos dos leitores, ou, pelo menos, os que conseguiram chegar até a parte 3 disso tudo, devem estar se questionando sobre o assunto do texto, tendo em vista o título. Alguns podem até estar pensando que a autora que vos escreve não tem nada mais interessante a fazer e por isso fica escrevendo essas coisas sem sentido que não acrescentam nada a ninguém. Não peço perdão! Eu apenas divaguei sobre cismas, desejos e manias. Fui, inclusive, bem sucinta em toda essa dissertação. Em meus planos constavam mais 4 partes, mas minha ansiedade me impele à finalização desse texto.

Desde sempre gostei de escrever. Pelo menos desde que aprendi essa brincadeira. Contudo, nunca havia atinado para a maravilha que é escrever, ou pra forma como eu escrevo com facilidade. Sempre me interessei em demasia por outras atividades, mas nunca deixei de escrever com freqüência. Por esse mesmo motivo, desenvolvi a escrita como não desenvolvi nenhuma outra atividade. Escrevia e escrevo sem perceber, sem sentir. O mesmo não acontece se eu me dispor a desenhar. Às vezes o desenho sai, às vezes, bom, às vezes, nada. Eu não acompanhei o desenvolvimento da minha escrita tão de perto quanto tentei acompanhar o desenvolvimento das minhas cismas, manias e desejos. Ela trilhou, sozinha, seu caminho. Nossa, que estranho! Minha escrita tem vida própria!!

Enquanto eu me frustrava tentando realizar tantas coisas ao mesmo tempo, escrevia. Enquanto eu sonhava tão alto quanto a criatividade jamais voou, escrevia. Enquanto ficava dormindo, escrev... bem, não escrevia enquanto estava dormindo, mas escrevia quando acordava, também vale! Sempre cultivei diários, cadernos de poesias, cadernos de textos e textos e textos. Era a minha forma de matar as pessoas que me faziam raiva em algum acidente sinistro, ou um suicídio macabro, ou um homicídio hediondo; sem ir presa, ou sofrer qualquer tipo de conseqüência.

Acabei descobrindo que tenho mais que prazer em escrever. Descobri também que não escrevo tão mal. Descobri que me faz falta o desenredear das palavras no papel, maestradas por mim, mesmo que eu não tenha lá muito controle sobre elas - mocinhas danadas. Descobri que é algo que se desenvolveu dentro de mim, sem que eu precisasse quebrar muito a cabeça. É natural. Agora, cismei que sou escritora! Ponto. Alguém quer contestar?

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