sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Memórias

Era tudo como sempre fora, desde que chegara da guerra. Tudo continuava ensolarado e seco e áspero. A cadela continuava dormindo no único canto da parede com sombra. Ele sempre tivera a impressão de que a cadela fazia parte da parede, como um artigo decorativo, ou massa de cal que nunca fora retirada. Ainda era branca, a cadela. Encardida de tanto tempo na parede, mas era branca, e nunca-nunca fora tosada. Parece até que fedia um pouco, apesar dos banhos muitos que sempre davam nela. Não ele. Ele só olhava a cadela-pedaço-da-parede e soltava beijinhos e dizia-lhe o nome de gente. Era só um reflexo, como tudo. Fazia voz abobalhada, como que falando a uma criança. A cadela já era velha e nem por isso deixava de abanar o rabinho longo, mas não voltava a cabeça. Ele não valia o esforço. A menos que oferecesse comida. Ela sentia o cheiro da comida de bem longe, sentia de fato. Talvez a Preta tivesse cheiro de comida, porque a cadela se animava ao vê-la: levantava a cabeça e, às vezes, até latia. É verdade: às vezes, até latia um pouco. E sorria. Ele sempre observava com o mesmo estranhamento: a cadela sorria. Parecia coisa de desenho animado, ou de gente doida; imagina só! Ver uma cadela sorrir só podia ser coisa de gente doida. Não! Não, não – não poderia estar doido. Era isso mesmo: a cadela sorria. Ponto-final e ninguém pra discordar, ele não comentava com ninguém.

Desencantou-se de olhar a Pedaço-de-parede por um tempo; ela só sabia respirar fundo e abanar o rabo se ele lhe chamava o nome. Desviou a atenção e ficou algum tempo procurando o que olhar, naquele quintal. O sol lhe pedia que voltasse os olhos para dentro da cozinha, ou que deitasse sua mão em leque por sobre a vista e ele o fazia, sempre. O respirar da cadela vinha de dentro dele e lhe enchia os pulmões de preguiça e gordura cansada. Lembrava de quanto sentia falta desse respirar fundo que ia lá no peito dele buscar as células de impressões antigas; de quando não tinha o respirar cansado da cadela, mas o sentia ao lado, no amigo de nome desconhecido que fora baleado e já arfava de morte e risco de vida. Essas coisas de guerra que ninguém nunca sabe bem direito como é e sabe bem do jeito que foi porque todo mundo tem aulas de história, na escola ou na televisão-que-distorce-o-real. Mocinhos não morrem pra poder ter um final, ele não morreu. Ele não morreu. Ele duvidara disso por muito tempo, até sentir o respirar da cadela bem dentro dele, dando vontade de dormir e de tomar sorvete. E isso ainda nem o convencia tão profundamente assim, ia raso no pulmão. Ia só até onde a lembrança deixava alcançar o presente.

Nem ouvia mais os zunidos de qualquer daquelas armas que ele nem lembrava mais dos nomes todos; era o zunido do pernilongo que ia ter com a luz acesa e se queimava saindo voando rápido p´ra voltar burro para a luz e novamente se queimar. Ô pernilongo burro, ele pensava lá dentro dos botões, sem lembrar de ver as palavras. Era reflexo. Como tudo, desde que chegara da guerra. Sacudia a mão no ar, porque o pernilongo desistiu da luz e veio se alimentar de algo que não queimasse. Sugou talvez meio mililitro – quanto seria isso? – do sangue que sobrara da guerra. Ele não o matou. O pernilongo continuou voando, mas esquecera a luz. Um zunido chato de um lado pra outro, e ele sabia bem de que lado vinha dessa vez, podia espalmar as mãos uma na outra no exato lugar do pernilongo e acabar com o zunido. Vinha vindo de cima para baixo, mas desviava a rota fazendo oscilações. Era sempre mais alto e mais forte perto do ouvido. Passava fazendo brisinha fraca nos pêlos do braço e nem se deixava desaperceber, nem se deixava notar demais. Era tanta coisa zunindo dentro da sua cabeça e o pernilongo nunca mais o deixava em paz, já tantos anos nesses minutos, ô pernilongo chato! ele dizia. Zuniam na sua cabeça as balas que saíam passeando pelo tempo e pelo ar, sem parar para admirar o que foram conhecer; estavam todas coelhos atrasados. “Estou atrasada! Estou atrasada!” podia ouví-las, a cada uma, dizendo enquanto passavam zunindo o cinza. Iam voando, jogadas, reboladas, arremessadas, sei lá o que! ele pensava. Tinha vontade de sacudir o rabo que nem aquele cavalo da fazenda que ele ia sempre. Mastigar ração e abanar o rabo. O pernilongo talvez fosse embora se abanasse o rabo de cavalo. E o zunido das balas. Era tão difícil abanar o rabo p'ras balas. “pá!”, maldito pernilongo, ele pensava. Ele mata um pernilongo, ele sim.

Descansou de lutar contra o pernilongo e desistiu do zunido que ainda ficava dentro dos seus miolos, feito miolo de pão partido e enchido de manteiga e carne moída. Agora dava pra esquentar a cabeça. Não era esquentar e ficar nervoso de gritos no vento parado; aquele esquentar que a gente bota a cuca debaixo do chuveiro pra continuar conseguindo pensar em algo. Dava pra esquentar a cabeça pra por debaixo do chuveiro. Pensava demais, agora, sabe Deus lá em quê ele pensava tanto, porque ele não desenhava as palavras, esquecia de vê-las e só pensava. Isso acontecia sempre, era um reflexo, parar e fingir que estava pensando pensar em algo que não desenhava na mente. A cabeça agora dava pra esquentar. Não era nem velho, mas nem novo não era mais, que idade ele tinha agora? Nem se podia dizer que estava se sentindo envelhecido, nem estava se sentindo, era essa a verdade. Todo dormente, de cabeça esquentada. Ia ficar careca, ia sim, de tanto esquentar cuca por pensar. Mas nem se sentia. Se o cabelo todo caísse de um pulo só, talvez, nem reparasse. Era metade do que fora. Menos. Era menos da metade do que fora. Mas não lembra ele o que um dia foi. Vontade agora de correr, e a cabeça queimando gigante. Correr para debaixo do chuveiro, apagar o fogo e os cabelos castanhos. Raspasse a cabeça a água não teria que passar pelo castanho dos cabelos para chegar à cabeça. O homem que estava lá do seu lado no regimento tinha a cabeça raspada, lá não era tão homem assim, era muito mais moço que ele. Nem rapaz, que rapaz já tem barba, era o menino que corria na frente da casa dele, atrás da bola de couro meio-rasgada. Um menino, meu Deus. Correu e foi pra debaixo do chuveiro. A cabeça queimava e crescia. Ô dor do inferno. Preta, traz aí um desses teus remédios, Preta, que minha cabeça dói. Era aquele tanque que fazia tanta zoada, e o menino da bola de couro era quem ia dentro do tanque. Não já matei o pernilongo? Tinha um pernilongo na sua cabeça, zunindo, zunindo. Queria abanar o rabo, galopar também, talvez, mas abanar o rabo.

Sempre fica um pernilongo na nossa cabeça, zunindo um bom tempão até que a gente consegue dormir, esquecer ou acostumar. É uma dessas coisas aí. Remorso, culpa, insatisfação. Era tudo da mesma cor. Éramos todos daltônicos quando... quando? Ele nem conseguia ficar num pensamento só, mas éramos daltônicos e estava tudo na mesma cor, feito farinha de trigo e mandioca vendida em feira, que vem tudo ensacada junto. Daí aquelas com caroços grandes que a gente tem que penerar. Ou não. Ninguém nunca conseguiu provar isso, mas ele tinha certeza que as farinhas vinham misturadas naquele saco de plástico com um carrinho de mercantil desenhado em azul. Depois de prensada nem dá nada que ninguém mais duvida da qualidade. E é bom, o pior, é bom. Ninguém nota. Mas ele sempre sabe: é misturado. Todo mundo é daltônico ainda, então. Existe daltônico de língua? Lembrou-se de um rapaz que perdera o paladar por usar muitas drogas. Na verdade, como isso acontecera? Ele lá sabia, não perguntou, nem estava prestando atenção. Essas informações que entram na nossa cabeça sem a gente ouvir, só porque estão sendo ditas na nossa frente. Foi isso. E o rapaz nunca ia saber a diferença entre a farinha de trigo e a de mandioca? A Preta dizia que ele era doido, que farinha de trigo era massa de bolo. Que ele lá entendia de cozinha. A Preta. Magra. Moça. Não, a Preta não era moça, nem de nenhum jeito a Preta era mais moça. Já tinha aquele requebrado de mulata, devia mudar-lhe o apelido? Qual era mesmo o nome da Preta, afinal? Devia estar escrito na carteira de trabalho, se ela a tivesse. Não era ele quem lhe dava o salário. Era a mulher. A mulher cuidava de tudo na casa, e ele só ia pra guerra , ele só voltava da guerra. Já devia fazer uns 6 anos – era mais, era mais – que ele passava os dias voltando da guerra. E a mulher sempre esperando, com o lenço branco na mão pra quando chorar, mas não o usava mais. Ele não a via mais usá-lo. Esperava-o sempre, na cama, na cadeira. Olhando. Olhando. Por que ele não entendia mais os olhares da mulher? Ele lembrava o nome dela também? A Preta era Iracema. Estranho, ela nem era índia.

A água era tão estranha, agora. Era igual. Não deveria ser. Estava tudo tão igual. Não deveria estar. A mulher ainda tinha aqueles cachos lisos que lhe desciam pela face de camponesa rosada, as mãos ainda ostentavam anéis grandes nos dedos finos, que mãos delicadas ela sempre teve. Ainda as tinha: as mãos delicadas. Era amarela, não, era parda. Parda rosada, pode? Pode, porque ela era parda-rosada antes de ele ir para a guerra. Não deveria ainda ser parda-rosada, mas era. Que cor deveria ser afinal? Qual a cor dele antes e depois da guerra? Acho que branco-sujo, que nem a minha cadela que não sai de perto do muro. Estou branco-sujo e ela continua parda-rosada. Era tudo tão de uma cor só, Preta, que a cor era diferente. Não, a Preta nem olha, nem ouve, nem está aqui. Ele nunca fora daltônico; também, era de reparar em todas as cores diferentes, mas queria que mudassem. Não mudaram. A água ainda era daquele jeito, daquela cor transparente que vem descendo pelo corpo sujo da gente e fingindo que vai limpando, só porque parece levar o peso todo e o incêndio da cabeça, não era por isso? Começava transparente e terminava branca da espuma do sabão. E era sempre tão barrenta, que quando tomava banho, nem se sentia banhado, mas que paranóia.... ia mesmo se deitar no chão outra vez e fingir que nunca dissera que não mataria ninguém na vida. Matara. O pernilongo, sim. Por ter matado pernilongos, pernilongos estavam na sua cabeça. Era bom voltar da guerra e ver que tudo ainda era seco e áspero e pardo-rosado. Não quero mais o remédio, Preta. Deixa doer.

Às vezes, quando era criança, nem tão criança mais assim, ficava maquinando um pedaço de tempo lá na varandinha da casa da bisa. Maquinava e traquinava sem fazer nada. E a mãe só olhava e ficava apreensiva, porque logo vinha alguma coisa quebrada ou sangrando ou chorando. Mas nem era. Coitado dele que só maquinava, e nem saía fumaça da cabeça ainda, só agora é que parecia que ia sair. Ficava pensando e olhando. Não que fosse danado, mas era criança de correr. E, ficasse quieto, a mãe pensava logo que estava doente, ou que estava tramando arte maior. Ele estava lembrando disso agora, que ficava pensando que tinha alguém olhando. Já tem um tempo, viu na tevê um filme de um cara que era olhado todo o tempo. Como era mesmo o nome do filme? Era um que era tudo um filme, a vida do homem era um filme, nesse filme que ele viu. Se tivesse visto isso quando era criança, teria ficado ainda mais tempo pensando. Era isso que ele achava, mas nem sabia o que era filme direito, ainda não sabia, nem hoje. Então só achava que estava sendo olhado. Passava a formiga que ele pegava com os dedos e sempre perguntava, sempre. Quer uma pipoca? A formiga o olhava, será? Que paranóia. Coisa de criança. Se já conhecesse a cadela diria já que ela ria. Coisa de criança. Talvez se o menino do tanque visse a cadela, dissesse a mesma coisa. Uma criança, meu Deus. Nem tão criança assim. Mas como não? Seu filho já tinha 21, uma criança, isso sim que ele era, uma criança! Uma criança que gosta de ficar sentada na varandinha da bisa pensando na melhor forma de assustar as galinhas lá no quintal. Ah, essa era ele.

Desobedecia regularmente aos adesivos espalhados pela casa, pela esposa politicamente correta. Era sempre deixando tudo aberto, aceso e ligado. Gostava de ver tudo iluminado, aberto, com barulho de água caindo. Só as janelas ficavam fechadas, de persianas abertas. Parecia até que não estava em casa, nem mesmo no mundo. Amplidão. Ficava tudo tão amplo que ele podia nadar. Piscina, não, oceano. Ah! como a casa virava um oceano com todas aquelas portas e gavetas abertas. Que vontade de nadar na casa feito um tritão. Sair abanando a calda de peixe pelas frestas de sol que entravam pelas persianas e vinham fazer magia na poeira da casa. Passar o corpo nadando por essas penetras, meio que Deus. Que nem era nos desenhos d’A Bíblia em Imagens com aqueles feixes de sol vindo escolher o cara da arca. Ele bem queria ser tocado que nem aquele cara. Se Deus fosse se manifestar para ele, seria em feixes-de-sol penetras. Desses que vêm perturbar a poeira da casa. Desses que vêm atravessar a água do chuveiro, a água do oceano. Mas acontece que o cara lá era politicamente polido também. Se a luz viesse escolher alguém, talvez fosse a sua querida com seu lenço branco pra quando chorasse, aquele que ela não usava mais. Ele não era politicamente correto feito ela. Não consigo ser politicamente, polidamente, correto, querida, desculpe. Quando estava lá naquela cerimônia estranha e chata, sem significado nenhum que lhe tirasse os tiros da mente, foi um cidadão polido. Fui politicamente correto, então. Tem as medalhas que lhe dizem isso. Honras que mereceram idas ao dicionário. Deve-se ser polidamente político para matar pessoas em nome da guerra, digo, em nome da paz, claro. Vontade de levantar bandeira branca, que nem o Pernalonga. Não matar pernilongos com inseticida. Vontade de deixar os pernilongos voarem e só precisar passar creme repelente. Alguém covarde é polidamente incorreto, né. Deixa a luz acesa e a água escorrendo, só pra ter vontade de nadar, de noite também. Não mata pernilongos. Eu sou polido e político e correto, sou, né?

Já nem se importava mais com tudo o que antes lhe causava nervosismos. Toda aquela coisa de antes, tudo o que fazia parte de quem ele foi. Mas então, não era mais? Não sou mais. E quem foi? Já nem sabe. A verdade era apenas essa: nunca voltara da guerra. Ele se esquecera de si lá: naquele tiroteio, no meio daquelas mortes, entre aquela fome, perdido em meio ao desespero, matando pernilongos. Ainda estava por voltar e nunca voltava. Herói de guerra que era, nunca mais voltava. Continuava. Seguia. E quem estava ali, olhando, pensando, esperando, tentando; quem estava ali nem ele sabia mais. Era Ele, um ele que ele desconhecia. Talvez um ele que o esperava voltar. E a mulher lá estava, com seu lenço branco na mão, pra quando chorar. A cadela continuava respirando a tarde quente e cansada de verão, esperando ser chamada pelo nome de gente pra abanar o rabinho. A Preta ainda estava lá cuidando de tudo, sem descuidar das roupas, da casa e da comida. E o pernilongo... só esse sabia onde ele estava e sabia bem onde ferroar.

Um comentário:

Marcelo disse...

Texto expressionista!

Histórico


as primeiras ideias...