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domingo, 24 de agosto de 2014

Uma a uma

Uma a uma, as gotas caem e escorrem na rua
Uma a uma, respingam em meus cabelos
Uma a uma, escorrem em meus ombros
fracas
            leves
                      evaporáveis
Uma a uma, continuam, reticentes
Uma a uma, cutucam-me, insistentes
Uma a uma, molham-me, inconsequentes
teimosas
                 repetidas
                                  resignadas
Uma a uma, agrupam-se ligeiras
Uma a uma, tornam-se incontáveis
E, inúmeras, atingem-me o corpo
o pescoço
                  o colo
                              os laços
....................................................................................
Passo a passo, aproveito as primeiras gotas
Braço a braço, cubro o peito da chuva que se adensa
Mão a mão, limpo as gotas do meu rosto molhado
                                

terça-feira, 3 de julho de 2012



Ainda que isso te fira,

                         Serei grito

Ainda que isso te mate,

                         Serei gozo

que, contido, me negaste

e, ferido, escondestes nos teus sonhos perfeitos de amor.

Ainda que isso te enerve,

                         Serei asa

Ainda que isso te adoeça,

                         Serei aroma

de café, de madeira, de terra, de mar.

E, digo, ainda, que, ainda ainda que para sempre deixes tua existência,

                         Serei existente

                                   latente

                                   independente

Ainda que isso te cale,

                         Serei desejo

...

Ainda que isso te irrite,

                         Serei vento

As palpitações me pertencem,

                         ainda que isso te anule.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quarto de dormir

a menina ganhou um quarto espaçoso
um belo guarda-roupa e uma cama
onde podia se esticar.
ganhou também caixas e prateleiras
e papéis.

a menina ganhou muitos papéis onde cultivar seus pensamentos.

a menina ganhou um quarto espaçoso
e, no quarto, tinha até uma televisão e um computador.
toda ligada ao mundo, de dentro do seu quarto bonito.

e, no quarto, tinha uma janela
tão tão grande que passava a menina por ela.
e gostava de olhar pela janela
de onde via o muro, a cerca
e um lindo pedaço de céu
quando esticava o desejo.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

não sei de poemas
nem tento.
são esquivos, sombrios
e carregam consigo a obviedade mais imprecisa.


já aqueles rosários de palavras...
esses me encantam
                                            quando não são rosários.
é que
na verdade
não são sentimentos passarinhos
são passarinhos
feitos de sentimentos.
Queria uma receita de vida toda.
Um passo-a-passo de dia-a-dia.
Mas só tenho esses ingredientes
mal medidos e mal pesados
Que bagunçam minha cozinha inteira.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Percurso

Longe de ser amor,
era aquela vontade de beber um suco e deitar-se deitada nas cadeiras da praça.

Longe de ser vontade,
era a querência de jogar-se lançada contra o discurso surdo e tagarela.

Longe de ser cerveja,
era a coca-cola derramada corrente pelas frestas da calçada.

Longe der ser vivência,
era o suspiro de um lirismo inspirado.

Longe de ser certeza,
era ainda quem sabe.

Longe de
ser
.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Queria ser peristáltica

Gostaria de, vez ou outra, permitir-se certas peristaltices.
Passar a noite em branco, catando todas as conchas que encontrar em seus desejos.
Cantar as notas mais altas, das copas mais verdes, dos sonhos mais doces.
Nadar rua afora, pintar as paredes de amarelo, mastigar os dedos atrevidos.
E, com todo o corpo, sentir os movimentos de suas vontades
tornando-se manhã e tarde e noite e amanhecendo outra vez.
Permitir-se, vez ou outra, certas peristaltices.
Era só o que queria.

Nem seria necessário compreender o movimento do mundo
ou sobreviver à violência, ou às suas doenças,
ou mesmo realizar seus grandes feitos, ou os pequenos.
Queria, antes de tudo, antes do fim do mundo, antes de cuidar das plantas,
antes de vacinar os cachorros, antes de ver o sol, antes mesmo de deitar no mar,
antes de nascer até.
Ser peristáltica. Lindamente. Simplesmente. Peristalticamente.
Como o seu coração, seu sono, seu amor, sua vontade, seu organismo e todos
todos

todos os órgãos ocos de seu corpo pequeno, amarelo e incontido.

Agir o impulso de não permitir que lhe obstruíssem a vida.
Permirtir-se o movimento de desentupir-se dos outros.

sábado, 5 de junho de 2010





sem o copo d'água
sem o livro de boa noite
sem a música baixinha
sem o filme na TV

hoje somos eu e o poeta -
empinadores de sonhos.

Haikai (2)

A máquina bobina
o que a menina,
traquinando, maquina.

---

No papel, um raio cai.
No céu, rabisca
da poetisa um haicai.

---

Da tua respiração,
vivifica-se
a "pura imaginação".

22/04/2010 12:40h

- Esses haikais ganhei de um enorme pedaço do meu coração que eu costumo chamar muito carinhosamente de Cara de Furico -

quarta-feira, 21 de abril de 2010

haikai (exercícios acadêmicos)

lupa é óculos
a pena apenas
que pena!

---

nasce uma flor
bem aqui
e nem está tão morta.

---

Convicções?
Só esses pequenos
pedaços de explosão.

---

Olha mais uma vez
o violão
de música quebrada.

---

Afina a corda
do mi
sem dó.

---

Lá vão os olhos
em vão
pelo vão da roupa.

Àquela que nunca maculei

Lembro-me de ti no meu primeiro semestre da faculdade. Chegavas calada à aula, com esse teu jeito de não chegar, e permanecia da mesma forma toda o tempo e teu nariz me dizia tanto de quão além tu eras. E lembro bem fotografado, não pelos cabelos revoltos que me remetiam à sexualidade que nem mesmo tinha ainda atingido, nem mesmo pelos teus seios que me faziam sempre lembrar dois leões-de-chácara a guardar teu corpo todo.

Nem mesmo pelo ar bucólico e carregado de teus ombros, seguidos de perto pelo mistério das saboneteiras, e, sem querer decepcionar-te, também não te fixei pelas mãos pianistas, que figuram uma grande paixão de minha infância, claras, decididas, delineadas e, no entanto, totalmente intangíveis, que começavam em pulsos perfeitamente finos e subjetivos, com aquele ossinho a apontar "sou mulher" e terminavam em unhas que nunca ousarei descrever por não confiar desta forma numa capacidade poética tão falha quanto a minha.

Erras, se presumes que guardei-te, tão firmemente à memória de artista, a figura devido àqueles teus traços laterais, munidos de latente carne e emeados pelas pontas sensuais dos teus cotovelos. Não digo ainda do motivo que me faz guardar-te eternamente entre os cachos que me povoam a mente, prefiro falar, nesse momento de devaneio, da tua minuciosamente latina pele amarelo-queimado que comporta esses sinais esparsos e distintos e convidativos e distantes; sou, nesse instante, tão vontade de olhar e olhar para sempre um pedaço de tua pele.

E teu ventre... teu ventre sempre coberto que me traz à tona a maternidade futura, teu ventre oculto pela camisa me parece o lugar mais conciliador de teu corpo todo e me instiga a vontade - tão contundente - de te pedir que acolhas, na superfície dele, minha cabeça atordoada, mãe carinho paixão que resume teu ventre. O que muito me importa, não sendo, no entanto, o que me prendeu à tua imagem, é essa singeleza eminente que te cerca e que se explode toda em não-limites e que, até agora, não sei precisar se te toca ou se emana de ti.

O que tem a tua figura que, uma vez presente, me preenche inteira e me impede de não te amar toda essa tua feminilidade que nunca antes eu vira materializada? Aqui eu chego, finalmente - e muito cansada e muito satisfeita e muito embriagada de te admirar -, no que me faz nunca te esquecer e sempre tentar te retratar com tantos e diversos nomes e histórias e facetas. Não é ainda a tal feminilidade descabelada ou essa tua face invasora que vem sempre me encantar, de dor e sofrimento e bucolismo e transcendência.

É a poesia, que me chega por todos os poros e de todos os meios e que só não te usa por ser a tua aparição a perfeita materialização da poesia. Em meus livros de teoria da literatura já posso grafar, à caneta bem escura, que a poesia és tu, posto que tu és a pura e simples poesia.

Poema de amor

Gosto muito mais daquela folha que cai
do alto de uma árvore e vai povoar o chão húmido.

Gosto muito mais da sombra mentirosa
que a cadeira do bar lança na parede suja.

Gosto muito mais do pedaço diminuto de pão
que vai na cabeça daquela formiga ali, cansada.

Ainda mais da cachaça com limão e da cerveja quente
que me ferem a garganta e me ajudam a gritar.

E é só. Gosto dos detalhes não-transitórios.
Gosto das persianas perto das quatro da tarde.

Gosto ainda mais da luz das quatro da tarde
que passa pelas persianas e brinca com a poeira.

Gosto do silêncio das conversas e do samba
e daquele violão consertado.

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