quinta-feira, 3 de maio de 2007

Domingo.

(Antes do texto, algumas palavras. Hoje faz 1 mês que meu avô faleceu, por este motivo, estou interrompendo a postagem de Valente, pois julgo mais importante prestar-lhe uma homenagem. Esse texto será lido na sua missa, logo mais tarde.)


O cheiro do fumo precedia qualquer apresentação. O cheiro do fumo cortado e queimado. Ele sempre comprava em rolo e passava a tarde cortando para guardar em uma latinha e depois fumar, sossegado. Meu avô era um homem sossegado, e vivido. Vívido e vivido. Era um homem cheio de vida em sua velhice tranqüila e afazeres idosos.

Tantas histórias ele viveu, tantas ele contou. Nem ouso dizer das que ele criou para satisfazer a curiosidade dos que escutavam. Eu mesma escutava todas, às vezes, não entendia as palavras, mas sempre terminava rindo, de forma ou de outra. Talvez pela espirituosidade de quem contava, talvez por entender o final, talvez por saber que aquela comparação – ele sempre tinha uma comparação - tinha um completo fundamento.

O fumo, o café, a rapadura e o pão de milho. Tudo tinha um cheiro e um gosto que lembrava avô. Lembrava o vô Pedro. E, claro, lembrava paciência. Muita paciência: tantos filhos, uma esposa e uma dura vida. Ainda escuto minha mãe contando as tantas e outras histórias de sua infância; e ela sente uma saudade que não dói, que é bonita.

Era o nosso amuleto, disse meu tio. De fato, ele o era, nosso amuleto, que nos unia aos domingos para vê-lo assistir a televisão, quase sem som, sentado na velha poltrona. Antes uma cadeira de balanço tradicional, depois uma bela poltrona azul porque meu avô merecia por os pés para cima, mas não o fazia. Era quadro pintado. Ele estava sempre lá, sentado em sua poltrona, assistindo sua televisão; minha vó ao lado, na rede, se balançando a notar o movimento na rua.

Hoje, o quadro está desfalcado. A televisão está lá, mas o som está mais alto. A poltrona, no mesmo lugar, mas antes me sentar nela a vê-la tão vazia assim. Vazia e com a marca do peso de quem antes a ocupava. O cheiro do fumo, agora distante, não precede mais a brincadeira. Agora precede o silêncio. E ficamos nós sentados na varandinha do quintal, olhando para onde estaria o Pedro. E ele estaria observando, pronto para alguma piada. Ele sempre me chamava para algum comentário porque sabia do meu riso frouxo.

Véi Pedim foi com Jesus, ou melhor, foi esperar por Jesus. Foi preparar as piadas para receber Jesus quando este voltasse da sua visita anual à terra, na Páscoa. Foi, talvez, fazer um pão de milho e um café quentinho – e forte –, rapar umas rapaduras. Entre uma e outra lágrima, os filhos, nós netos, a esposa e tantos amigos nos lembramos dos momentos bons e dos menos bons, que foram, e graças a Deus, ficaram. O cheiro do fumo, já tão apagado, ainda me faz ter a impressão de que ele foi ali, no quintal, e já volta; no seu passo pequeno, sua visão curta, e sua camisa sem mangas.

7 comentários:

LHP disse...

Fica aqui registrada a minha homenagem a este grande homem, que fez feliz toda uma família e gerações de pessoas que fazem o mundo valer a pena de ser vivido.

Beijos Bek,
Apesar de minhas mancadas, te amo e te adoro!

Danillo disse...

Um excelente texto para um homem formidável. Creio mesmo que a homenagem foi merecida. Que esteja em paz...

Andreas disse...

Seu Avô deve ter sido uma pessoa muito especial... Mesmo sem conhecê-lo esse texto me tocou e me fez sentir como se fosse neto dele também, talvez por ser tão parecido com o meu avô...

Beijos Bek!

Arik disse...

E lembro desse quadro...

=***

Ananda disse...

Lindo,Bek!Sem pieguismo mas mostrando magistralmente o que é sentir saudade!
beijo!
parabéns,minha linda!

mgi disse...

Está lindo, o seu texto. Hoje foi a minha vez de a vir visitar. :)

P.S: Na cirandacomgi, em resposta ao seu comentário, já está uma nota sobre o desfecho do "Caminho Marítimo"

Vemo-nos por aí.

Gilliard disse...

Isso me trouxe tantas lembranças...

É aquele cheiro antigo, que traz tanta nostalgia...


E que ele esteja divertindo muitos, lá no céu!

*Reverência*

=****

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