domingo, 4 de março de 2007

“Pseudoliterariedade de um falso intelectualismo”

Começa assim: você está passeando alegremente pelo Centro – bairro comercial da cidade (de toda cidade) – e aí se depara com um sebo que nunca tinha visto por ali. Então você pensa “Eita, um sebo novo? Nunca tinha visto ele por aqui...”. Exatamente, é assim que você pensa. Não com essas palavras, mas vai me dizer que você pensa “Ah! Um novo estabelecimento plebeu para a venda, à preços módicos, de publicações outrora modernas de obras, com páginas rotas e desgastadas com a ação implacável do tempo, que ficarão para sempre na memória da Literatura, acaba de ser inaugurado por mais um burguês!” Ah, tem dó, você se perde na metade da frase e nem sabe mais sobre o que estava pensando.

Você resolve entrar no tal sebo, dar uma olhadela de soslaio para os livros e para seus preços – você precisa saber se são tão módicos assim, ou se é mais um picareta que não sabe sequer quem é o tal Tolstói que ele vende tanto. Então você encontra um livro desconhecido. Um autor completamente novo para você – e repara também que mesmo a edição não é tão velha assim. Não contém a curiosidade e se deixa sentar sobre o chão coberto de poeira – qual seria a sua cor original? – para, da forma mais cômoda possível, desvirtuar esse novo escritor que surgira do nada. Então você abre na contra capa – porque o título estava completamente ilegível na capa, com aquelas letras imitando um líquido qualquer escorrendo – e lê o título. Não sabe bem que reação expressar.

O título é algo confuso demais, com palavras estranhas – de certo retiradas de algum dicionário do português arcaico -, mas, afinal de contas, você é um aficionado – e está sentindo-se mais um ‘afixionado’ - um intelectual! Como pode não compreender um título tão simples? Então você percebe que o tal burguês está espiando você, discretamente – ou pelo menos o tal acredita que sim. Você esboça uma expressão de total compreensão do que está lendo e ainda arrisca um risinho pretensioso, como se já soubesse, por alto, do que trataria a história.

Você ainda se demora um pouco no título, como se estivesse se deliciando completamente com a expectativa da história que estaria por vir. Então passa as páginas tranqüilamente. Passa pelo prefácio e nem se atreve a começar a ler. As informações sobre o autor passam totalmente despercebidas por seus olhos tão perspicazes, sequer nota se elas vêm antes ou após o prefácio. Claro, não posso deixar de mencionar a sua expressão. A essa altura você esboça aquela expressão intelectualóide que todo universitário da área de humanas ostenta – e a maioria sequer leu Machado em toda a vida. É aquela expressão que você já conhece bem e com a qual já está bastante familiarizado de tanto ensaiá-la em suas conversas com os menos interessados na arte da leitura.

Você endireita os óculos – que você talvez nem precise usar tanto assim ou poderia estar usando lentes de contato, mas os óculos, a armação pesada ou a falta dela, emprestam a você um aspecto mais respeitável de pessoa culta e estudiosa. Independente do estilo de vestimenta que você ostenta, sempre irá parecer que você o faz por ser alguém de muita leitura e muitos conhecimentos. Os óculos finalizam o quadro. Talvez umas olheiras leves fossem até muito bem-vindas, pelas noites que você supostamente passa lendo, mas nada é perfeito; o charme dos óculos já se mostra respeitável. A expressão de total compreensão, ou mesmo um ar de filosofagem, ganha representatividade e autenticidade.

Você lê o primeiro parágrafo do primeiro capítulo. Você o lê outra e outra vez. Muitas combinações de palavras estranhas. Palavras bonitas. Você sorri heróico: compreendeu o primeiro parágrafo. Na verdade você excluiu o que você não captou e interligou os pontos que não deveriam ser interligados. Pronto, decidiu: vai comprar o livro. Na saída comenta com o vendedor burguês: “Gostei da maneira perfunctória com a qual esse leitor escreve indo de encontro ao nazi-nipo-fascismo esperado.”. O burguês concorda com um sorriso amarelo e você sai do estabelecimento plebeu com o espírito renovado. O escritor é mesmo muito bom.


(aceito idéias de título XD~~)

7 comentários:

LHP disse...

^^ já falei que adoro seus textos?

Sugestão de título: intelectual, você?

Ulisses disse...

perfunctória ?

o que é isso ? O.o? XD~

ops quase esquecendo

é um texto excelente! XD~

Eu já tive essa fase , mas eu nunca conseguir falar palavras dificies!

A unica recordação dessa fase é a Divina Comedia que nunca foi lida!

Caio Marinho disse...

"Com a qual esse leitor escreve" é o ápice do dirigir-na-banguela intelectual.

Caio Marinho disse...

Deixa sem título mesmo. Bota "parte dois", no máximo e só porque já tem a um.

David Herculano disse...

Eu gostava do título antigo!

hahha

Parte preferia:

"Você sorri heróico: compreendeu o primeiro parágrafo."

Ráy disse...

Adorei mainha!

Título?

Hm...

*pensa*

Que tal, "Ensebando"? Dá uma dulpa conotação, do Sebo e o ato de ensebar, enrolar, etc...

Se não gostar, diz... Eu penso em outro...

Lucas disse...

Um título: Burocracia Formal


Por que não? =)

Histórico


as primeiras ideias...