quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Carta.

Jericoacoara, 15 de janeiro de 1987.

Oi,

Não conheço você, talvez nunca venha a conhecer e, mais provavelmente, você nem exista. Com certeza, alguma correnteza ou onda mais forte levará essa mensagem para o esquecimento e eu nunca obterei resposta, não a almejo, entretanto.

Escrevo porque choveu esta manhã e o cinza que cobriu a praia não era morto, não era vietnamita, nem ditador. Fez-me lembrar dos sonhos que tive e que me alimentaram.

Não tinha bicicleta e não pude andar na chuva pedalando e de braços abertos, como sempre tive vontade de fazer, talvez eu morra sem realizar esse gosto.

Devem estar nascendo crianças hoje, pontinhas de lápis que vão escrever vontades e desejos nas areias das praias cinzentas como esta que está olhando para mim. Vão pisar fundo e afundar os pés na areia molhada, sem medo dos caranguejos e siris. Vão correr gritantes de tão gelada vai estar a água da onda que veio de surpresa. Crianças.

Gosto tanto de crianças que nunca terei filhos. Acho que não saberia ser pai, talvez, tirasse delas, logo de início, esse pudor e esse medo paternos que as protege.

Está chovendo outra vez. As gotas caem do telhado formando diversas cachoeiras de brinquedo e algumas crianças brincam em baixo delas, fazendo algazarra.

Fico feliz ao imenso, se essa expressão existir, de ver que as crianças brincam nas biqueiras dos telhados, porque a água é gostosa e clara. Minha cadela não tem vontade de sair para brincar com as crianças, acho que é o frio. Normalmente ela faz festa no meio da rua.

Talvez eu já esteja velho com todos esses meus 20 anos. Ainda não vi, nem cheirei, nem dancei, nem verbo nenhum tudo o que poderia. Mas ainda terei oportunidades, um centenário de felicidades carrego nas costas: por isso ando curvado.

A primeira vez que concretizo em atos o que sempre imaginava. Peço perdão pela garrafa de aguardente, não estou em Viena, nem no Porto, e a única garrafa de vidro com tampo de cortiça que me foi disposta continha aguardente, que joguei toda na areia.

Formou uma piscina. E grãos de cristais de areia nadam como se fosse um dia de sol e verão.

Ainda chove.
A.C.

Obs.: Um último e infantil fio de esperança me impele a escrever o endereço no verso da página.

5 comentários:

Caio Marinho disse...

"Essa chuva, essa aguardente..."

Ulisses disse...

*__*

esplêndido!!!


do Lat. splendidu

adj.,
que tem esplendor;
que provoca admiração;
magnificente;
deslumbrante;
luxuoso.

pois é...
achei esse texto tão minha cara! ;D
=****~

Ingrid disse...

Só vou comentar mesmo pra vc saber que eu li.


É o tipo de coisa que, depois que se lê, não se comenta.


Você sabe... Você me entende...

David Herculano disse...

Não vim aqui agora começar a escrever elogios por que sinceramente não sei qual seria mais bem apropriado. Não que na língua portuguesa não tenha um que com certeza se encaixe (ou talvez nem tenha mesmo), mas eu sempre ia ficar com aquela sensação de "poderia ter dito mais" ou "poderia ter dito diferente". Então, fique sabendo apenas que: adorei. Ponto.

Outro dia, quando fui pra Natal, ouvi a seguinte história: alguém (um tio de um amigo meu), uma vez colocou uma garrafa no mar, com uma mensagem. Dizia pouca coisas: "Oi, tubo bem, me responde se achar isso". E acharam e responderam! Parece que até hoje se comunicam por cartas (mas bem raramente). Se não me engano também, parece que a pessoa é do Cabo Verde.

Adorei, Bek. Muito bom mesmo! (Olha eu elogiando! Agora vai ficar a sensação...)

Ps.: Qual o problema com a garrafa de Cana?

Raila disse...

Eu vivo escrevendo cartas que não mando. =/

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