E fica uma
certeza: o silêncio, à medida em que conforta, vicia e, vício que se torna, nos
prende e mata lentamente, sem que saibamos porque morremos.
sábado, 14 de abril de 2012
Algumas palavras são cartas guardadas na gaveta, sem endereçamento, sem selo, sem lacre. Sentimentos que eu quis dizer, mas não quis que ouvissem. Uma parte escondida de mim, recheada de paixão, raiva, frustração e desejo pelos quais nunca quis lutar.
Algumas palavras são o silêncio que ninguém questionou, guardado em alguma caixa de minha estante.
Tinha uma música abafando
o sons do dia e, por trás da música, tinha risos que escondiam um segredo num
diário fechado debaixo da cama; que, cúmplice do diário, escondia as molas
fracas e as marcas no colchão e, passeando por tudo isso, pela música, pelos risos,
pelo segredo pelo diário pela cama pelas molas fracas estávamos eu e meus
gritos.
Tinha também um cachorro
preto que, acho, me questionava sempre, tudo, mas nunca obtinha resposta, pobre
do cachorro. Para ele, também, acho, a música existia naquela manhã abafando o
som do pão no desjejum. Para ele, acho, naquela manhã, a música também abafava
os sorrisos e os segredos e os diários e as camas e as molas fracas da casa
toda porque ele me questionava.
Eu tinha dois olhos vivos
fixados em mim e, bruscamente, sentia o som do dia novo, que descia meu corpo e
se alojava na fralda, sem qualquer amparo meu, ou de meus gritosgemidosmúsicas.
E, por fim, tinha a minha
mulher.
Éramos, então, eu que
gritava, a música que abafava o som da manhã, o cachorro que questionava e a
mulher. Para quem, acho, havia a música naquela manhã, que escondia as molas
fracas do segredo cheio de sorrisos no diário debaixo da cama perdida no meio
de sua manhã atribulada.
A mulher, que era minha,
ouvindo meus gemidos, vinha ver o que eu queria e me passar o relatório da rua.
Eu não queria. Não que tivesse escolha, mas eram muitas informações e eu me
concentrava muito fortemente em controlar meu corpo. Que gemia.
E a mulher, supirava o
cansaço de me cuidar todos os dias. E a música, como mãos que doem, parou.
Desejo mãos que elevem meus olhos a outros sentidos. Mãos
que, calmas, me colham o último pomo maduro. Mãos que, leves, retirem de mim as
notas agudas de um suspiro. Desejo mãos que sejam olhos, boca, pele, muito além
de tudo. Mãos que se estiquem em pontes unindo aos meus os desejos de alguém.
Mãos que sejam mãos e tão somente.
Lembro-me dos almoços de finais de semana na casa da nossa avó. Bem amanhecia, sabíamos do que aconteceria: íamos passar o dia na casa da vovó. Eram favas contadas: almoçaríamos bife com batata, dessas cozidas no vapor da carne.
Lembro-me de que, naquela casa sempre limpa, sempre clara e organizada, havia uns almofadões decorativos com os quais nós os primos criávamos as mais diversas habitações e brincadeiras sob os olhares azuis e meticulosos da avó. E havia, também, uns ladrilhos azulados e uma atmosfera de aconchego e de história, como se a casa quase pudesse falar e demonstrar carinho. Por todo o lugar, o capricho e o cuidado dela: no tempero, no asseio, nas cadeiras da varanda, que deveriam, aliás, permanecer no mesmo lugar.
Lembro-me de minha avó constantemente ocupada e apressada em dar conforto, em preparar o almoço. E lembro-me da tagarelice: ela contando a todos as histórias de não-sei-quando-e-antigamente.
A simples apresentação (como esta que aqui trazemos) de um trabalho literário inédito pode suscitar, muitas vezes, algo em conformidade com certos elogios de ocasião, ou a saudação bastante entusiasmada que fazemos em se tratando de enaltecer parentes, cônjuges, compadres políticos ou amigos de longa data que se lancem, com ou sem experiência, pelo terreno da literatura. Não é o caso aqui.
Os textos reunidos neste livro valem pelo que apresentam de profundamente verdadeiro (digamos, no sentido do que foi vivido, observado, experimentado pela própria autora) a cada palavra emitida, na atmosfera assaz diversificada que vão criando a partir de texturas inesperadas, bem ao gosto de certo
impressionismo literário, ou do subjetivismo lírico tão comum em muitos de nossos jovens escritores da atualidade.
A autora em questão, Rebeca Xavier, não necessita, pois, para se firmar com reputação, do julgamento eufórico, típico de certo deslumbramento crítico, para o qual tudo é soberbo, magnífico em dada obra, e que a faz sem igual no universo da literatura. Basta, para isso, e tão-somente, a figura do leitor, e não o itinerário de especialista, que induz o juízo ao prescrever certas posições críticas.
Notará o leitor um jogo de inocência trágica, aqui e ali, o qual se pode perceber já na abertura com “O sorriso da moça”, que traz certo quê da fluidez textual clariceana. Mas, sem dúvida, o que mais chama atenção neste livro é o fato de haver, em boa parte do material aqui reunido, o desempenho algo perturbador da inquietude da vida, quer dizer, de uma tensão existencial em tudo que a narrativa muito habilmente registra no seres que acompanha; mas narrativa que, em contradição, a torna insólita, pois que dá a ela um forte destaque com o valor de coisa desprestigiada. Assim, “tudo o que ela escreve vira nada depois, de qualquer forma”, sentencia “Ela era ela, era elas”. Digamos que assim é em razão do fluxo narrativo por demais poderoso e intenso que há na escritura de Rebeca Xavier: os acontecimentos simplesmente atropelam-se em virtude das imagens que se justapõem até que sobressaia o desfecho sem qualquer estardalhaço, mas com a mesma inquietude paralisante em que teve início essa ou aquela história de vida, sem resolução aparente, apenas em devir; e não sem jogar com o lirismo das sensações visuais, dos aromas, da recordação das coisas de uso doméstico, e mesmo das mais insignificantes de nosso dia a dia. Prova disso são os retalhos intitulados “Memórias”, “Fetiche”, “Palacete”, “Da varanda”, “Terceiro segredo”.
Para compensar a quase imaterialidade desses quadros psíquicos, restará, sem mais, o ar às vezes jocoso, às vezes displicente, às vezes gaiato, que desponta em meio ao turbilhão de imagens e sensações densas. Coisa aparentemente ingênua, a exemplo da referência ao “sorvete”, que é de “gosto cansado e passado”, como acontece em “Ela era ela, era elas”; ou ainda o mesmo caso para a “pipoca” de “O sorriso de moça”; mas que culmina no clima memorialístico de o “Segredo”, com a seguinte tirada da autora, a saber: “Dava adeus ao platonismo e espirrava: Nietzsche!”. Isso diz tudo, a nosso ver, do trabalho revelador de Rebeca Xavier, e que o leitor tem agora em mãos.
Aquele beijo tinha gosto de sorvete derretido, que era o mesmo gosto do sorvete, mas cheio de impaciência para acabar logo. Impaciência disfarçada de riso.
Escrever não é construir uma paisagem, é, antes de tudo, desconstruir uma paisagem. Escrevo não o que sinto, mas sim para sentir algo. Não escrever é me tornar ser difuso, inconsistente, etéreo, como uma paisagem estanque, que as brumas não impedem a visão, já que a visão já foi decorada... Não escrever é não pensar, é não sentir. É não existir.
Escrever é basicamente existir.
domingo, 25 de setembro de 2011
Nao é como uma bala, o dinheiro vai, a bala vem. É gratuito. Quando te amo é por te amar e não uma espécie de troca. É só por te amar. Por isso dói. Porque não aconteceu.
Foi o que ele pensou quando a viu passar sem voltar-lhe o rosto, enquanto casava de pés descalços. Enquanto esperava também ele a gratuitade de outra pessoa.
Dia 10 de setembro, um sábado, foi o lançamento do livro de Retalhos, que foi, em grande parte, construído aqui, ao longo de muitas postagens e de muitas sensações. Acredito que não preciso re-afirmar como estou contente com essa publicação que, espero, seja apenas a primeira.
O evento aconteceu na Livraria Saraiva, do Shopping Iguatemi, aqui de Fortaleza e foi organizado pela Paco Editorial e pela Maíra Araújo, responsável pelo setor de Comunicação da Livraria Saraiva.
Quem quiser adquirí-lo pode procurar na própria livraria ou pedir pelo site da livraria, ou da editora.
Obrigada, de verdade, a todos que puderam comparecer, espero que gostem da leitura!!
Como nunca acordava às cinco da manhã, não conhecia a brisa que gelava bem de leve as coxas, nem a mudança quase que momentânea do anil no céu por entre o cerrado e, pior que tudo, não sabia a impressão de fumaça que trazia o cheiro das primeiras tapiocas do dia, aquelas ainda sem o borralho, ainda sem os resíduos, as tapiocas cheias do cheiro do fim da noite. E, por entre a bifurcação no tronco de uma árvore, podia ver uma única folha de coqueiro balançando, como que desapercebida de tronco, no precioso instante em que, do outro lado do quintal, o céu se rasga e deixa cair umas faíscas totalmente etéreas, quase falsas e, como tudo o que estava vendo, não lhe era familiar e, não o sendo, prendia sua atenção de uma maneira dispersa, enfraquecendo-lhe as pernas pelo medo de sentir-se ela mesma uma folha de coqueiro desapercebida de tronco, bailando solitária num céu incrivelmente laranja e preenchendo-se toda do cheiro da tapioca, muito antes do cheiro do café.
Era como se passasse para o lado de lá de sua existência, o lado onde era apenas isso: um existente. Olhá-lo, assim, à distância, enquanto sorvia o vício pelas passagens de sua ciência de apenas existir era qualquer coisa de completo. Não fumava apenas: erguia a cabeça e fumava-me em demoradas tragadas. Só, e apenas. Talvez por não gostar da partilha, da entrega, do desvelo. Talvez precisar inalar todo aquele dia frio, solitário de mim. Dia de quem apenas existe, de quem é. Não era como se tivesse chegado à consciência de seu próprio corpo, ou do meu corpo ausente ao seu naquele momento: era a certeza concreta de ser, independente de se perceber no mundo. Apaixonado de si. E eu, inteira, tragada por ele, sabendo que era a minha paixão que ele sorvia e era a minha paixão novamente que ele repudiava e lançava pro mundo e que, paixão que era, o rodeava, mas não se ia... desvanecia, mas não se ia.
Sentado na varandinha velha, com os pés próximos ao corpo, na posição de feto amadurecido, negava-me a certeza e a paz, tragando-me em demorados minutos e divorciando-se de mim com um ar consciente de que nada daquilo dependia da ciência dele para existir. Não daquele lado da existência em que nos encontrávamos, ele por si e eu por ele. Negava-me a proximidade, enquanto me permitia que lhe entrasse pelos pulmões e saísse-lhe, lasciva e pura, pela boca frouxa de quem não intenta.
Como quem apenas exisitisse no mundo, no meio da lembrança carente da chuva, no meio do que podia pressentir, no meio das inevitabilidades (porque existências independentes) da rua. em cada não-pessoa, uma vez que inconsciente do não-sentido pacífico de seu nascimento, em cada grão-de-tudo que tragava para si mesmo, reafirmando-se livre de toda a realidade latente que passava por ele e que se ia avenida ao longe cruzando sinais e horizontes (e capacidades óticas).
E, nessa ausência de julgamento, deixava-se ficar adentrado por mim, eu carente, eu sedenta, eu fugidia, eu oportunista, envolvendo-lhe os cabelos e o pescoço e o peito e o peito e o coração que eu percebia arritmado pelo asma e pelas limitações físicas e emocionais que só eu alcançava. E, mesmo assim, lançava-me fora e a solução era deixar-me sempre um pouco em cada entranha pela qual passasse, paulatinamente.
Observava-o e ele fumava o cigarro entre os dedos grossos a vista grossa entre as pessoas na rua. E eu esperava. Que era só quando aquele rito terminava que ele deixava de existir por si e passava a existir comigo e eu, perdida toda e embriagada na existência latente dele, podia erguer-me em realidade. E, virando para mim, dizia em tom manso, como se soubesse sempre de minha presença ao seu lado, olhando-o e aguardando que retornasse, dizia que bonito estava o céu e que eu deveria dar-me ao luxo de levantar a cabeça um pouco e perceber as nuvens, que nunca estavam pesadas como hoje. E, tocando o mindinho de minha mão como se tentasse dali tirar um nota alta de piano, reparava as minhas unhas cerradas e, brincando, pedia para roê-las já que eu toda mocinha não o fazia mais e tentava encontar os lábios e eu ria. Ria muito do despropósito. Ria mais de como ele se tornava inconsciente da própria existência, minutos antes tão contundente, tão forte e pesada sobre a minha própria.
E então ele lacrava todas as minhas questões: você fica me olhando como se nunca me conhecesse, mas conhece cada pedaço de mim como se nunca tivesse estado longe. É como uma invasão, sabia? Você me invade e vai deixando um pedaço de si em cada esconderijo meu. São esses seus olhos que eu nunca consigo apreender completamente, tão fugidios. Como se você me amasse, entende? E eu, olhando a nuvem que ele havia me mostrado na sua inquietude repentina, encolhia-me toda em seu colo e, sem voltar-lhe a vista, descobria-me uma existente, notas altas de piano soando de meus mindinhos em seus dedos grossos.
Gostaria de pedir desculpas por ter colocado os dois selos no blog e não ter seguido os passos... confesso que eles me incomodaram bastante.... e, mais do que isso, inquiteram-me muito! Primeiro pela necessidade de indicar outros 15 blogues, o que, pra mim é muito difícil, porque, se por um lado, gosto de todos os blogues que sigo e que linko aqui ao lado, por outro, menos de 15 me fazem realmente parar para ler a cada conexão, porque encontram meus botões. Então, como indicar 15? Ou, como indicar apenas 15? Isso me deixa ansiosa... Depois, por ter de falar de mim dessa forma tão clara e numerada.... poxa, difícil escolher apenas 7 pontos sobre mim, ao mesmo tempo, 7 pontos são pontos demais, acabo me sentindo muito exposta. Aqueles que REALMENTE leem este blogue, já devem ter percebido que eu não sou tão dada a obviedades. Dessa forma, para acabar com o meu conflito épico e não fugir tanto às regras, eis:
PRIMEIRO SELO:
Este eu recebi do poeta Fernando de Souza (http://osilencioentreaspalavras.blogspot.com/) e acho que só dele, não tenho certeza. E fiquei muito honrada, porque ele é o dono de um dos blogues que leio sempre com uma emoção renovada.
Para este selo, é de regra que eu indique alguns blogues para a leitura: Indico, porém, que se aventurem pela blogosfera e usem essa enorme lista de blogues aqui ao lado para iniciar esse desbravamento; que não se deixem levar pelo layout, ou pelas primeiras linhas, mas que adentrem nos históricos e, principalmente, que se permitam as eperiências que leituras diversas odem proporcionar.
Como segunda regra, devo responder algumas coisas sobre mim: Nome: Costumam me chamar por Rebeca, embora eu me chame Francisca em primeiro lugar. De qualquer forma, sabendo que a mensgaem é para mim, não sou tão paranóica por nomes. Uma música: Esse é o tipo de pergunta que me deixa sem sono, como escolher UMA música? Humor: Perguntas ambíguas também me inquietam... responderei assim: é muito importante que seja bom. Uma cor: Tem uma de que eu não gosto: de burro quando foge. Alguém, uma vez, disse que era a cor do meu cabelo. Eu era criança. Uma estação: Sou cearense, só conheço duas estações: quente com chuva e quente sem chuva. Gosto da estação que me encontra tranquila. Isso não tem sido tão comum. Como prefere viajar: Dormindo. Na verdade, não é preferência. Eu durmo, apenas. Seriado: Dr. House. Acho que essa não foi complexa. Frase/palavra mais dita: Os meus alunos diriam "porque eu sou bela!", mas a frase que eu mais digo é "...". Sabe, que nem aquele capítulo do Memórias Póstumas, quase que-nem, na verdade. O que achou do selo: Bonito e inflador de egos. É pra dizer se gostei? Gostei.
SEGUNDO SELO:
Esse selo também me foi dado pelo Fernando (será que só ele lê meu blogue? o.o). E eu não entendi o propósito dele ainda. Não sei continuar algo se não enteder o propósito, por isso não jogo dominó. Enfim...
Deveria indicar 15 blogues, então é um ctrl+c ctrl+v lindo aqui.
E SETE coisas sobre mim....
1. "O único mistério do universo é o mais e não o menos
Percebemos demais as coisas - eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A realidade é apenas real e não pensada."
- Alberto Caeiro
2. Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calme e perdoo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre."
- Clarice Lispector
3. "Comigo me desavim:
Vejo-me em grande perigo!
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim!"
- Francisco Sá de Miranda
4. "...agora não estava mais submetido ao que acabara de viver, mas o que acabara de viver estava submetido ao que acabara de escrever."
- Milan Kundera
5."E como as esperanças têm esse fado a cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo..."
6. "Provo.....................................................
Que a mais alta expressão
da dor...........
Consiste essencialmente
na alegria......
- Augusto dos Anjos
7. "Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje é senhor de suas mãos
E das ferramentas"
- Chico Buarque
Consigo recordar, muito claramente, de uma temporada (e quando digo temporada, quero dizer uma semana, no máximo) que passei com a família em Parajuru. E quando digo família, quero dizer algumas pessoas que fizeram parte do meu crescimento, meus pais e irmãos e uma família que, de tão amiga, tratava como tios e primas. Devia ter em torno de 10 anos, ou menos... não tão menos, sem dúvida, porque lembro de já escrever meus versinhos rimados. Ficávamos abrigados na Pousada do Lobão, nome que nunca compreendi, enquanto criança, mesmo sabendo que o dono chamava-se Lobão, que nada mais era do que várias casas iguais, enfileiradas em diversas filas dentro de um terreno vasto e, bem no centro, um chuveirão onde fazíamos a festa depois de voltar da praia. O grande atrativo era a calmaria, ainda não era praia de carnavais e de estrangeiros, e a proximidade do mar. (Lembro de catar ostras, certa vez, e de cozinhá-las, e de achá-las muito gostosas apenas para não dar o braço a torcer e razão aos adultos). O portão estava quase sempre aberto, mas eu me negava a atravessá-lo sozinha porque, no chão, ele era feito dessas tiras de cimento com buracos fundos entre uma e outra, imitando um bueiro; tinha sempre medo de prender ali os meus pés e nunca mais soltá-los. Era uma menina medrosa, sou uma mulher medrosa.
Verdade que passei nessa praia idílica grande parte de minhas temporadas infantis. Verdade, também, que a que me refiro repetiu-se todas as vezes, desde que começara a entender o jogo de palavras que lia nas páginas da biblioteca. Do que me recordo com tanta clareza, no entanto, é de um fim de tarde em que, tomada de uma repentina e inusitada coragem (talvez apenas para receber elogios, talvez a faísca de uma profissão surgindo ali), peguei minha agendinha amarela dos "101 dálmatas" e comecei a ler os versinhos infantis que criava. Esse sarau improvisado, acredito, inspirou minha chamada prima, que começou a escrever outros tantos, além dos que ela já tinha. Lembro de ter sido uma noite agradabilíssima, na qual criei várias quadrinhas rimadas e todos achavam que eu estava apaixonada e eu me deleitava com a certeza de ter a impressão de todos nas minhas mãos, ou melhor, na ponta do meu lápis.
À agendinha amarela somaram-se outras tantas agendinhas, repletas de versinhos de amor, engraçados, tristes, enraivecidos, apaixonados e, em todos eles, meu regozijo em controlar a impressão do alheio. Passei das quadrinhas rimadas a poemas longos, cheios de um sentimento que não era meu, mas que eu catava aqui e ali nos suspiros amigos, nas leituras fantasiadas de estudo, nas experiências sempre muito mais interessantes do que as minhas, nas inusitadas revelações e em tudo que eu imaginava, mas que não tinha a menor sede de viver. Sempre tive muito clara em mim a necessidade e a certeza de que os retalhos que recolhia por aí eram cortes de tecido caríssimos. Os versos, no entanto, começaram a me incomodar. Aquela minha velha sensação de controlar o pensamento de todos acerca de mim estava tão fraca, tão embaçada. Não me dava mais tanta confiança. Passei a me sentir muito exposta, mesmo não sendo meus os sentimentos. O julgamento do alheio me incomodava, preferia que não soubessem da minha existência. E parei de mostrar os versos que tecia. E parei de tecer.
Meu diário, a que chamava "sentimentário", passou a ser a única manifestação da ponta de meu lápis. E li. Li tudo o que me chegava às mãos, até descobrir as possibilidades da internet, quando comecei a ir com as minhas mãos até tudo que podia ler. E foi lendo que senti a necessidade de escrever. Não mais aqueles versos de antes. No meu "sentimentário" havia tudo de que eu precisava. E escrevi. Desta vez, tornei-me uma ladra de galinhas, de limão, de goiaba, de vivências. Apropriava-me de tudo que via, ouvia, pensava, lia, enfim, roubava para mim o que eu não tinha e, somando ao que tinha, comecei a criar frases longas em longos parágrafos, palavras-frase e frases-parágrafo e personagens incorpóreos que, justamente por isso, não poderiam denunciar minhas fontes que, incorpóreas como os meus personagens, misturavam-se à minha própria vida, ao irreal dos meus devaneios e à realidade insípida da minha rotina e tudo deixava de ser real, de ser físico e passava a um plano totalmente seguro e à salvo do que qualquer alhio pudesse pensar de mim, porque ja não existia "eu" dentro do que estava escrito. Separei-me do rastro que meu lápis largava no papel de tal forma que pude perceber que não sou um retalho a compor uma toalha, mas, sim, uma toalha, composta de retalhos.
Hoje, com essas minhas manifestações oníricas, atingi um nível dos meu sonhos inexplicável e consegui materializar meus desejos com a publicação deste livro que me foi motivo de tantas noites de insônia e de tanta ansiedade e insegurança. Mas não venci meus medos, fui impelida pela necessidade de me livrar do peso que são tantos tecidos juntos.
Libertei-me e agora tenho medo de voltar para casa.
"Coleção Novas Letras abre processo seletivo para publicação de contos e poesias
A Paco Editorial abre a escritores de todo o Brasil uma excelente oportunidade de publicação. Trata-se da “Coleção Novas Letras”, que seleciona e publica obras das categorias conto e poesia. Não se trata de antologia, mas de obra individual, exclusiva de cada autor. É a grande chance de novos autores terem seu trabalho impresso em livro, com a qualidade e chancela de uma editora que tem feito a diferença no mercado. O diferencial da “Coleção Novas Letras” é a oportunidade dos autores inserir obras de qualidade no mercado de livros, diferente de antologia, que é apenas uma amostra do trabalho de vários autores e não possibilita mostrar integralmente a obra de cada um. Esse é o objetivo da Paco Editorial, alcançar com a “Coleção Novas Letras” um espaço real para o autor mostrar o seu talento ao mundo."
Se você é liso, feito eu, mas gostaria de publicar seu livro, acho q é uma boa oportunidade para isso. A editora está recebendo e avaliando originais e o custo é mínimo, e apenas em cima de editoração. Bem, eu arrisquei =P
Em tardes assim, em que parece que nada vai acontecer, em que se passa o tempo a olhar o tempo deslizando por entre o azul interminável do céu, imaginando cenas transparentes, etéreas, indescritíveis. Em tardes assim, em que nossos pensamentos passeiam incontíveis pelas copas dos cajueiros, arriscam-se pelas galhas velhas e frágeis em busca de memórias empoeiradas, em busca de histórias guardadas. Em tardes assim queremos fechar os olhos e abrir o relicário de árvores antigas, cheio de mitos e aventuras e casais enamorados; queremos deitar e respirar todas as lembranças alheias tomando-as para a nossa própria vida, no momento tão sem significado, tão miúda e sem copa, sem tronco... sem raiz. E parece que nos tornamos parte da tarde, do seu azul infindo, da idade repleta dos cajueiros e das mangueiras, e ganhamos raiz primeiro. Raiz que nos faltava, desequilibrando-nos em sua falta.
Ela se olha no espelho, reclamando de suas curvas e relembrando um passado mentiroso, no qual era infinitamente mais bela e mais desejada. Reclama, reiteradamente, de suas formas e de suas medidas, não desistindo mesmo quando os elogios começam a aparecer em vozes visivelmente irritadas. Perde seu tempo criticando sua própria silhueta dentro de roupas de boa costura, esticando com as mãos sua pele coberta de cremes e olhando-se no espelho (esperando elogios).
Ela levou uma vida e não percebeu o azul que a esperava, pendurado por todos os lados, espreitando de todas as frestas, insistindo em todos os tons. E era tanto azul, o azul que a espreitava, tanto. Ela nunca percebeu e perdeu o que a rodeava, perdeu os elogios para o azul que a desejava.