sábado, 10 de março de 2007

Apontoados

Tudo estava pronto; nada mais poderia ser feito. Ali estavam eles, frente a frente, no momento decisivo do qual sempre fugiram. Olhavam-se, incrédulos, sem uma única oportunidade de retroceder ou seguir por um outro caminho. Era uma dessas situações decisivas, como um marco; um início ou um fim. As mãos denunciavam a ansiedade e o nervosismo, talvez a insegurança; tremiam e transpiravam; os dedos aguardavam o contato com o metal frio que selaria a cena e poria um fim na dúvida ordinária. Hesitantes, ambos estavam sérios. Nenhuma palavra era dita e, mesmo para os mais desatentos, era possível perceber a respiração descompassada dos personagens deste drama. "Como chegamos a esse ponto? ” era o que, possivelmente, se perguntavam, em seus íntimos bagunçados e perturbados pelo momento. Momento este que parecia não ter fim. O relógio, na parede ao lado, estaria quebrado? O tempo estaria 'quebrado'? O "tic tac" soava tão distante e lento...

Olhavam-se, inquisidores, buscando uma certeza, uma razão. Nada fazia sentido nessa lógica tão óbvia. Não havia porque pedir perdão; não havia de quê perdoar. Sempre foram cúmplices e sabiam que era tudo uma grande conseqüência. A certeza oscilava entre um e outro, ia e vinha, inconstante. Era possível sentir as perguntas que eles se faziam em silêncio. Era quase audível a agonia deles se questionando sobre o presente. Destino? Eles nunca gostaram de não ter controle sobre a própria vida; "destino implica em falta de controle sobre si mesmo... implica em ser inútil fazer escolhas" era o q sempre diziam. Nunca haviam planejado esse desfecho, ou qualquer outra coisa. Tudo: as palavras, os gestos, os caminhos... tudo fora arbitrariamente acontecendo. Sem metas. Sem planos. Sem sonhos. Desejos. Sorrisos. Agora, isso. Nunca imaginaram que seria assim... que caminhavam para esse fim. Seria mesmo o fim?

Fim. Começo. Fim. Começo. É uma questão de ponto de vista. Poderia ser o fim de tudo; poderia ser o começo de algo. Olhavam-se como íntimos estranhos. Analisavam-se como se fosse a última vez. Viam-se como se fosse o primeiro encontro. Não sabiam ao certo se aquilo deveria ser feito, mas ambos o fariam. Estavam sendo observados, sabiam disso. O passado - as arbitrariedades - agora os perseguia e ameaçava, apontado para suas esperanças e para seus amores.

Chegara a hora. Fora lançada a pergunta. Primeiro ele: A voz saiu rouca e abafada e ele se surpreendeu com o que se desprendeu de suas entranhas. A nova pergunta – a mesma pergunta – soava fantasmagórica e parecia vir de algum lugar no alto. O "não" sairia da boca dela da mesma forma covarde que entrara na mente. Respirou fundo e fechou os olhos, mas o "Sim" ecoou pelo ambiente entorpecendo-a. Ambos olharam-se assustados, por algum tempo. Um alívio percorreu cada veia e cada artéria ao constatarem a ordem de tudo. Não havia uma única amostra de ameaça naquele salão. Talvez o passado tivesse se resignado ao ontem.

O metal, enfim. Estava feito: eles agora assinavam o compromisso. Agora estava acabado. A covardia inicial sucumbiu ao amor. Estava acabado, estava acabado, estava acabado e, ainda agora, não tinham certeza do que havia acontecido. O padre, os convidados, todos parabenizavam o casal. Ninguém poderia imaginar o que estaria por vir. Nem mesmo eu; nem mesmo eles, mas foram avisados. Eles foram avisados e prosseguiram.

Ouviu-se então um tiro. A glória e a magia do momento deram lugar ao meu corpo jogado no chão, inerte. Meu sangue manchava o lustroso chão da igreja e meus olhos, ainda abertos, suplicavam por vida. Os noivos me olhavam culpados, abraçavam-me enquanto eu já não respirava. Eles me mataram... eles me mataram. Eu posso ver em suas faces a culpa e o desespero, mas eles nunca mais me verão. Assassinos; e eu já não sinto o efeito louco da cocaína.

7 comentários:

Eça disse...

Ficou ótimo, fiota...

Falta o titulo...

:p

Bjão!

Breno disse...

UI o.o'

gostei XDDDD

JD disse...

Fala sério, Bek... PER-FEI-TO! Cara***! Eu fico até sem saber o que falar, porque tá incrível! A forma como você conseguiu passar a angústia das personagens e transitar de um foco pra outro... magnifique!

Beeeijos, Bek!

PS: E, como título, que tal algo do tipo... Drama? ;)

Mauricio LHP disse...

nossa!
Você se superou dessa vez!
O último parágrafo... perfeito... a parte mais perfeita do texto perfeito... esse parágrafo parece escrito pelo Renato Russo...

Bek... dessa vez você exagerou em ser boa!

Beijos!
Te amo e te adoro!

David Herculano disse...

Sim?
Pois não?

Não vou elogiar, por que senão vou ser só mais um (deja vù).


=*

David Herculano disse...

Mas nem dá!

FICOU ÓTIMO

Caio Marinho disse...

"Cocaína", pra dar aquele efeito circular, que sempre é chique e in.

Histórico


as primeiras ideias...